Cubanos Presos, Aqui e La. Por Carlos Alberto Sardenberg, no Jornal O Globo de 29.08.2013

Opinião de Carlos Alberto Sardenberg, publicada no Jornal O Globo, de 29.08.2013

O problema não é que sejam médicos, muito menos cubanos. O problema é o método de contratação, que convalida grave violação de direitos humanos.

Importar trabalhadores é normal. Importam-se, por exemplo, os melhores profissionais, para agregar conhecimento e expertise às práticas locais. Ou se traz um tipo de trabalhador que não se encontra no país importador. Ou ainda pessoas que topam salários e serviços que os locais não aceitam.

Este é o caso da importação de médicos pelo governo brasileiro. Tanto que os estrangeiros só poderão exercer um tipo de medicina e apenas nos lugares para os quais foram designados. Não vieram para transmitir alguma ciência ou prática nova. O médico de família e o atendimento básico não são novidades por aqui.

Mas são insuficientes, diz o governo. É um argumento. As entidades médicas brasileiras, portanto, não têm razão quando se opõem à importação em si.

Ocorre que a história não termina aí. Tão normal quanto a importação de trabalhadores é a exigência de qualificação — algum tipo de avaliação do profissional estrangeiro para saber se atende às necessidades nacionais. Todos os países fazem isso.

Portanto, o governo brasileiro pode abrir uma espécie de concurso internacional para contratar médicos. Mas, primeiro, eles têm que passar por prova de capacitação, como passa qualquer brasileiro quando entra para qualquer serviço público. Segundo, esse mercado deve ser livre.

Assim: o país importador oferece a oportunidade e dá as condições de trabalho, os estrangeiros, pessoalmente, se candidatam, fazem os testes e assinam o contrato. Esse documento, obviamente, pode ser rescindido. Imagine que o médico chega numa cidade remota e verifica que não tem a menor condição de atender. Ou não recebe o salário acertado. Ele pode retirar-se e rescindir o contrato. Inversamente, se começa a fazer besteira, o governo, o contratante, pode afastá-lo.

E se o médico, afinal, achar que entrou numa fria, e que sua família não se adaptou — ele pode pegar um ônibus, ir até o aeroporto mais próximo e embarcar, com seu passaporte e o de seus familiares, de volta para casa. Ou para Miami.

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Essa é a situação dos médicos argentinos ou portugueses. Não é, obviamente, o caso dos cubanos. Estes não têm o contrato de trabalho com o governo brasileiro ou outra entidade local, não recebem salário brasileiro, não têm o direito de desistir, têm passaporte que só dá direito de voltar a Cuba, não têm, pois, a liberdade de deixar o Brasil e ir para qualquer lugar que desejarem.

São funcionários do governo cubano, destacados para trabalhar no Brasil — sob as regras contratuais do regime cubano, uma ditadura. E não poder trazer a família, que permanece refém em Cuba, sem poder viajar para o Brasil ou para qualquer outro lugar — isso é de uma violência sem limite.

Os médicos ficam presos no Brasil, suas famílias, em Cuba. Parece exagerado, mas é a pura verdade. Tanto que o governo brasileiro foi logo avisando os doutores cubanos que não tentem fugir ou pedir asilo, porque serão presos e deportados.

Por isso, não vale a comparação com empresas brasileiras que levam trabalhadores brasileiros para suas obras em outros países. Os brasileiros foram livremente e podem voltar ao Brasil (ou qualquer lugar) quando quiserem.

Tudo considerado, o governo brasileiro pode importar médicos, mas não praticar a violação de direitos humanos embutida no contrato dos cubanos. Os médicos brasileiros podem exigir provas de validação dos estrangeiros. Mas não podem hostilizar pessoalmente os cubanos. Tirante os militantes, a situação pessoal deles é penosa.

O governo brasileiro mentiu várias vezes nesse episódio. Em maio último, o então chanceler Patriota havia dito que se preparava a importação de 6 mil cubanos. Dada a reação ruim, o ministro Padilha disse que o governo havia desistido do projeto. Agora, assim de repente, aparecem 4 mil médicos preparados para vir ao Brasil.

O governo apenas aproveitou o momento para lançar o Mais Médicos, com esse propósito principal de trazer os cubanos. Com marketing: quem pode ser contra a colocação de médicos em lugares carentes? Por outro lado, a presidente Dilma comprou uma briga feia com os médicos brasileiros, caracterizados como ricos insensíveis no discurso oficial e aliado. Uma ofensa, claro, mesmo considerando que há médicos que não cumprem suas obrigações. A grande maioria está aí, ralando.

Finalmente, e se algum cubano entrar, por exemplo, na embaixada dos EUA e conseguir refúgio, o que fará o governo brasileiro?

 

Entenda como o Uruguai planeja legalizar a maconha. Do website da BBC Brasil

Texto publicado originalmente no website da BBC Brasil (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130731_uruguai_legalizacao_entenda_pai.shtml)

Se projeto for de fato aprovado, Estado uruguaio controlará produção e venda da maconha

Se projeto for de fato aprovado, Estado uruguaio controlará produção e venda da maconha

O Uruguai está a um passo de legalizar a maconha e colocar nas mãos do Estado a produção, a distribuição e a venda controlada da cannabis – uma medida inédita no mundo.

Na noite de quarta-feira (31 de julho), o projeto de legalização foi aprovado na Câmara e segue agora para o Senado, onde acredita-se que passará sem dificuldades.

Segundo o governo, a lei tem como objetivo tirar mercado dos cartéis de narcotráfico e evitar que os uruguaios passem a consumir drogas mais pesadas.

Veja abaixo o que mudará caso a lei seja de fato aprovada:

Nas mãos do Estado

O Estado uruguaio assumiria o controle e a regulação das atividades de importação, produção, compra, armazenamento, comercialização e distribuição da maconha e derivados.

Isso seria conduzido por uma agência estatal, responsável por emitir licenças e comandar os elos da cadeia.

Quem poderá comprar e cultivar?

Só maiores de 18 anos e residentes no Uruguai poderiam se registrar como consumidores recreativos de maconha e comprá-la em farmácias licenciadas.

São previstas três formas de acesso à substância:

– pelo cultivo próprio, para uso pessoal (sob um limite de seis plantas e uma colheita máxima de 480 gramas por ano);

– pelo cultivo feito em clubes que exigiriam filiação (com um mínimo de 15 sócios e um máximo de 45, e um número proporcional de plantas, com um limite máximo de 99);

– compra em farmácias.

Um indivíduo só poderia comprar e ter em sua posse 40 gramas de maconha.

O projeto de lei também prevê o cultivo para fins científicos e medicinais – este último, liberado por meio de receita médica – e habilita a produção de cannabis não psicoativa, conhecida como cânhamo industrial.

Como as licenças serão emitidas?

O projeto de lei estabelece a criação de registros para a produção, o cultivo próprio e o acesso à maconha em farmácias.

Tais registros estariam guardados sob a lei de proteção de informações sigilosas.

Além disso, seria criado um órgão estatal, que emitirá as licenças de compra.

Mas o projeto de lei não especifica os critérios para a emissão de licenças, seu custo e que pessoas seriam autorizadas a tê-las. Tampouco estipula qual será a produção de maconha do país.

Acredita-se que esses aspectos da lei serão regulados pelo Poder Executivo, se confirmar-se a aprovação da lei.

O governo também deve elaborar planos de prevenção ao consumo, e serão proibidas a publicidade e a venda a menores de 18 anos.

A normativa determina a criação de uma unidade de avaliação e monitoramento do cumprimento da lei.

Por fim, plantações não autorizadas teriam de ser destruídas sob ordem judicial, e o órgão estatal a ser criado será responsável por aplicar penalidades a infratores.

 

 

A Dor da Perda de Um Grande Amor. Por Fabio Hernandez

Texto de Fabio Hernandez publicado originalmente no Diário do Centro do Mundo (http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-dor-da-perda-de-um-grande-amor/)

 

Quando a angústia torturadora se vai, vencida enfim pelo correr dos longos dias, o que sentimos não é alívio, mas vazio e frustração.

Fim de caso no clássico dos clássicos, Casablanca

Fim de caso no clássico dos clássicos, Casablanca

 

Uma mulher me esperava no restaurante. Ela sempre chegava um pouco antes; eu sempre um pouco depois. Fazia muito tempo que não a via, mas certos hábitos jamais se alteram. Vi que ela folheava um livro, acomodada numa mesa para dois. Ela sempre tinha um livro à mão para a hipótese de eu demorar mais que o razoável.

O livro que ela lia naquele momento, vi depois, era uma pequena biografia de Marcel Proust sobre a qual eu escrevera na VIP do mês anterior. Era ela. Nadja, meu amor perdido. Ela estava de volta à cidade por uns dias para visitar a mãe.

Nadja, depois que rompemos, conheceu um fazendeiro de Mato Grosso. Logo se casaram e ela mudou para lá para viver seu novo amor bucólico. “Tudo bem?”, perguntei. “Graças a Deus.”

Rimos e o gelo se quebrou. Era uma piada particular nossa. Nadja era atéia. Ela jamais acreditara em Deus. Num certo momento, deixou de acreditar também em mim. Foi aí que nosso romance começou a terminar.

Reencontros com amores passados servem para mostrar muita coisa. Mostram, por exemplo, como uma intimidade construída em anos pode se dissolver instantaneamente com o rompimento. Você trata com cerimônia constrangida alguém com quem, até pouco antes, tinha a mais absoluta liberdade.

“A melhor coisa que você fez por mim, em muito tempo, foi indicar na revista este livro”, ela disse. “Sou realmente grata a você.” Era a Nadja de sempre, irônica, às vezes ferina mesmo num banal agradecimento pela indicação de um livro. “Uma frase”, ela continuou. “Tem uma frase neste livro que talvez seja a mais linda que eu já li. E a mais triste também.”

Ela me passou o livro aberto numa determinada página. Nessa página, uma sentença estava sublinhada. Nadja costuma sublinhar as frases de que mais gosta nos livros que lê. Eu tentei muitas vezes fazer o mesmo, mas minha falta de método jamais me permitiu consolidar esse hábito.

Li a frase sublinhada por Nadja. Ela tinha razão. É uma das frases mais tristes que alguém já escreveu. Proust disse: “Nesse nosso mundo onde tudo fenece, tudo perece, há uma coisa que se deteriora, que se desfaz em pó até de forma mais completa, deixando para trás ainda menos traços de si do que a beleza: a saber, a dor”.

A dor. A dor da perda de um grande amor. A gente imagina que vai morrer sem ele. Como dói aquela ausência. Como dói a perspectiva de nunca mais ter nos braços alguém que a gente imaginava ao nosso lado para sempre. Nunca mais.

E no entanto quando aquela dor torturadora se vai, vencida enfim pelo correr dos longos dias, o que sentimos não é alívio, mas vazio e frustração.

É como se pensássemos: o grande amor exige uma dor eterna, um luto no coração até o último dia. Só que a dor, como disse Proust, dura ainda menos que a beleza. Devolvi o livro a Nadja e trocamos de assunto.

O resto do almoço foi alegre. Lembramos certas passagens de nosso romance como na cena final de um dos meus filmes preferidos, Annie Hall, de Woody Allen, e rimos muito.

Lembramos, por exemplo, o dia em que entramos por acaso numa festa de firma num bar no Terraço Itália e acabamos comendo mais, bebendo mais e rindo mais do que qualquer pessoa naquele salão.

Lembramos a madrugada bêbada numa boate em que uma prostituta recomendou compostura a Nadja. E então era tempo de despedida. Sem drama. Ela refizera sua vida e eu a minha. Ela voltava para Mato Grosso e eu para minha vida de escritor barato.

Já não doía como doera nem nela nem em mim, mas ali compreendi com clareza que a morte da dor amorosa também pode, de uma forma estranha, doer.

Esboço da artista enquanto musa da Geração Y – por Daniel Pellizzari para o blog do IMS

Artigo de Daniel Pellizzari publicado originalmenteno Blog do Instituto Moreira Salles (http://www.blogdoims.com.br/ims/esboco-da-artista-enquanto-musa-da-geracao-y-%E2%80%93-por-daniel-pellizzari/)

Sasha Grey em São Paulo em agosto de 2013 (por Renato Parada)

Sasha Grey em São Paulo em agosto de 2013 (por Renato Parada)

Fisicamente, ela é pequena. O corpo miúdo contrasta com os traços fortes do rosto, a cabeça parece um pouco maior do que deveria ser. Nascida Marina Ann Hantzis, ao completar 18 anos abandonou a faculdade na Califórnia, onde estudava cinema após completar o ensino médio um ano mais cedo. Em seguida adentrou a indústria pornô usando o nome Anna Karina, como homenagem à musa de Jean-Luc Godard, mas logo misturou KMFDM, Oscar Wilde e pequenas alterações de grafia para chegar ao pseudônimo sob o qual ganharia notoriedade: Sasha Grey.

Logo no primeiro filme a postura deliberadamente desafiadora e casca-grossa – “a degradação parecia ser incapaz de degradá-la”, como bem definiu Daniel Galera – chegou a intimidar Rocco Siffredi, veterano macho alfa do pornô. Rocco se consagrou nos anos 1990, década de Sylvia Saint e Jenna Jameson, pornstars com personalidade de boneca inflável. Verdade que nessa época também havia Asia Carrera, integrante da Mensa (associação internacional de indivíduos com alto QI). Mas era uma curiosidade biográfica e nada mais: apesar de inteligente e autoproclamada nerd, Carrera não transferia essas características pessoais para seu trabalho na indústria pornográfica.

“Quantas atrizes pornô são existencialistas?”, Sasha Grey perguntou retoricamente numa entrevista feita em algum ponto dos três anos de carreira como atriz (se parece pouco, cabe lembrar que foram 271 filmes). Ela entrou em cena em meio à ascensão no pornô de mulheres fortes e de postura  mais assertiva, como Belladonna, uma influência confessa. Acabou se destacando pela combinação entre performances e persona: as referências intelectualizadas já bastariam para que chamasse a atenção em meio às colegas, mas Sasha tentava encarnar o próprio discurso, transformando suas atuações em intervenções performáticas e construindo aos poucos e em público uma persona artística bem delineada, uma (por mais que isso pareça estranho em se tratando de atrizes pornô) marca autoral. E nesse processo, ao mesmo tempo deixava transparecer uma honestidade quase perturbadora para quem estava prestando atenção.

Com essas características e esse histórico de interesses e inquietações, parece natural que Sasha Grey não tenha ficado satisfeita apenas com a pornografia, que abandonou de vez em 2011,  e passado a atuar em filmes convencionais (estreando em The girlfriend experience, de Steven Soderbergh), além de participar da banda industrial aTelecine, lançar o livro de fotografia neü sex e agora, aos 25 anos, estrear na ficção em prosa com Juliette Society, lançado no Brasil pela Leya com tradução de Bruna Axt Portella.

Juliette Society é narrado por Catherine (uma referência a Belle de jour, de Buñuel), estudante de cinema em crise com o namorado que aos poucos é dominada por fantasias sexuais obsessivas e acaba se envolvendo com um grupo misterioso através da amizade com uma colega menos reprimida sexualmente. “De certo modo, Catherine é quem eu teria me tornado se tivesse tomado decisões diferentes na vida”, diz a autora. É uma personagem interessante, mas seu arco narrativo é previsível e, como o livro inteiro, não chega a empolgar como entretenimento. A desenvoltura na composição das cenas de sexo, notoriamente complicadas para qualquer escritor, é às vezes invejável, e algumas delas funcionam muito bem. Mas o melhor do livro é mesmo Bundy, personagem coadjuvante que é um belo espécime da categoria “canalhas carismáticos” da literatura.

Quando, sentado no chão do quarto do hotel, parabenizo Sasha por essa criação, ela, sentada na cama, abre um sorriso, inclina a cabeça um pouco para o lado e comenta, meio pensativa: “fico muito feliz que você tenha dito isso, sério mesmo”. Como um pouco antes ela havia mencionado planos para uma trilogia, parece que vem mais Bundy por aí – ou talvez tenha precisado negociar com o editor a manutenção no livro de um personagem que à primeira vista pareceria detestável para boa parte dos leitores de um livro feito para vender como água.

O lançamento de Juliette Society em São Paulo foi um sucesso, batendo o recorde de livros autografados na livraria: foram mais de quinhentos exemplares em quase cinco horas. Parte considerável do público estava na faixa dos vinte e bem poucos anos, com uma presença significativa de mulheres jovens e vários casais.  Muitas das mulheres comentaram com Sasha que a têm comorole model, um exemplo. “É estranho ser considerada um exemplo”, comenta. “Entrei na indústria pornô para resolver minha própria sexualidade. Mesmo assim, fico feliz que tenha inspirado outras jovens a também encararem de frente a própria sexualidade”.

É um indicativo de um processo de inserção da pornografia no mainstream, como parte indissociável da cultura de massa. A aura do pornô como algo proibido, vergonhoso e sujo, velha conhecida das gerações anteriores, deu lugar a adolescentes usando camisetas com a inscrição “pornstar” sem nenhum constrangimento e à estética pornô se tornando parte do cotidiano. Pornografia audiovisual de todo tipo – pornô convencional, fetiches de toda sorte, vídeos amadores gravados com celular – inundam a internet (aqui um sinônimo para: o mundo).

Hoje nenhum moleque precisa passar pelo constrangimento de alugar um filme pornô numa locadora – quase um rito de passagem da minha geração –, e, o que é ainda mais importante, as meninas têm a mesma oportunidade de acesso fácil e ubíquo (se o rito da locadora já era complicado para jovens do sexo masculino, é fácil imaginar o que representava para as adolescentes da mesma idade). No Tumblr, a verdadeira rede social dessa geração que não vê muito sentido na distinção entre público e privado em nenhuma área da vida (e, de certo modo, nem entre pornografia – como performance realizada para um observador externo – e sexo – como ato íntimo que só diz respeito aos envolvidos), imagens eróticas e pornográficas são onipresentes, e nenhum profissional (ou ex) aparece com mais frequência que Sasha Grey (James Deen, ator pornô ainda em atividade que se tornou uma espécie de galã das adolescentes, é o único a ameaçar seu posto).

E foi nessa sociedade pornificada que a literatura erótica também se tornou um fenômeno de massa, a partir das vendas acachapantes da série 50 tons, de E. L. James. Não que livros eróticos – de romances descartáveis vendidos em bancas a obras com qualidade literária – tenham sido inventados agora: é um gênero tão antigo quanto a própria ficção em prosa. Mas um sucesso nessas dimensões, atingindo uma demografia tão variada, chama a atenção. Por que a palavra escrita, e logo agora? Seria um movimento de busca pela narrativa, pela fantasia sexual com enredo, em meio ao excesso de oferta de imagens em movimento sem nenhuma coesão interna?

“Mais uma vez, é tudo culpa da internet”, diz Sasha Grey. Para ela, isso é parte do mesmo fenômeno que massificou a pornografia e a tornou mais aceitável no mainstream. “As pessoas estão perdendo a vergonha de assumir publicamente sua sexualidade, suas fantasias”. Faz sentido. 50 tons começou na internet, como fanfic (ficção amadora, escrita por fãs) erótica com personagens da sérieCrepúsculo. E assim como ainda há muito espaço para fantasias sobre um príncipe encantado (apesar de todo o BDSM, esta é a essência de 50 tons), existe mercado para tudo. Inclusive para Juliette Society, que vai na direção oposta.

Comento que, com o livro, agora Sasha ingressou num universo onde ter simpatias existencialistas não é exatamente um diferencial. Com isso em mente, o que então a tornaria única como autora? Ela devolve a única resposta possível: “minhas experiências”. Isso poderia ser dito de qualquer autor, em qualquer gênero, mas é correto: tudo que um autor tem para trabalhar são suas experiências, o diferencial é saber (ou não) o que fazer com isso através da intersecção entre técnica e talento. Pergunto se ela tem planos de escrever algum livro sem nenhuma relação direta com sexo. Na mesma hora percebo que isso soou mal, ainda que não tenha sido minha intenção.

Sasha ergue uma das sobrancelhas e muda de expressão. “Claro, já fiz muitas coisas sem nenhuma carga erótica, muitos roteiros, estou sempre trabalhando nisso”.  Ouvindo isso, lembro do projeto de leituras para crianças em escolas, abortado por conta da reação indignada de pais e professores. Resolvo perguntar sobre algo que me interessa mais diretamente: em 2010, numa entrevista, ela comentou estar envolvida com um “filme black metal”. Quero saber que fim esse projeto levou, e de onde vem o interesse dela pela estética – aqui ela volta a sorrir – e pela ética – aqui, uma risada – do black metal.

Fico sabendo que o projeto ainda está vivo, ainda na fase de roteirização, mas empacado há algum tempo na dificuldade de se lidar com o tema sem resvalar na caricatura ou, pior ainda, na visão irônica. Sasha Grey respeita demais o black metal para isso. O que a fascina: entender a criação, através de uma estética bem demarcada e visualmente fascinante, com grande ênfase na natureza, de um ethos próprio que vai de encontro ao ethos vigente. A criação de um universo através do desenvolvimento de uma linguagem própria, com códigos nem sempre compreensíveis pela sociedade como um todo. O fato de ser um gênero-cultura isolado e resistente à comercialização. “Como o hip hop no início”, ela diz, e é a minha vez de sorrir.

A assessora avisa que o tempo terminou. Esqueci de conversar sobre o conceito de erotismo de Georges Bataille, que sempre me pareceu presente no discurso de Sasha Grey. Não deu tempo de perguntar sobre a provável influência da cosmovisão espermognóstica (talvez via Coil e Throbbing Gristle, nomes importantes – e seminais em mais de uma acepção – da música industrial) no interessante sexto capítulo do livro. Mas antes que eu fosse embora, ainda conversamos um pouco sobre David Tibet, músico/poeta/profeta gnóstico e único membro fixo da banda experimental inglesa Current 93, com quem ela gravou em 2009.

“É ótimo trabalhar com ele, que tem um olho incrível para descobrir novos talentos com algo de único”. Um deles é Antony Hegarty,  ganhador em 2006 do Mercury, prêmio mais importante da indústria musical britânica. “Tivemos conversas intermináveis sobre todos os assuntos”, ela conta. “Ele não aprova as coisas que fiz, mas em momento algum fez eu me sentir um lixo. Era mais como um irmão mais velho preocupado com o meu bem-estar. David é uma pessoa realmente boa, sabe? Alguém genuinamente bom e aberto. Isso é uma coisa tão rara”. E é mesmo.

Durante a estadia no Brasil, Sasha Grey está lendo Gabriele d’Annunzio.

* Daniel Pellizzari é redator do site do IMS.

 

 

Viajar Sozinha Pode ser Muito Divertido. Por Priscilla Santos para a Revista Vida Simples

Artigo de Priscilla Santos para a Revista Vida Simples (http://vidasimples.abril.com.br/temas/viajar-sozinha-pode-ser-muito-divertido-237144.shtml)

Agregue novas experiências e novos lugares ao seu roteiro de viagem fazendo o passeio só (foto: Manuel Nogueira)

Agregue novas experiências e novos lugares ao seu roteiro de viagem fazendo o passeio só (foto: Manuel Nogueira)

 

Seja bem-vinda, você acaba de embarcar numa viagem. Mas esqueça marido, filhos e cachorro (claro que você os ama, mas é só por um tempo). Esta jornada é só sua. Desta vez, você vai viajar sozinha. Ah, não venha dizer que não gosta de solidão. Se você pensa assim, está na hora de rever seus conceitos, quem sabe preconceitos. Sim, mais do que em alguns lugares do mundo, existe aqui no Brasil a mania de achar que se alguém está sozinho é por falta de opção. Quase nunca passa pela cabeça das pessoas que é justamente o contrário: uma escolha consciente de dar um tempo para ficar com você mesmo, se abrir para os lugares e as pessoas e, se perigar, até se conhecer melhor.

Se a idéia de viajante solitária, expressão (mal) traduzida do inglês, provoca calafrios em você, pense em viajante independente. Começou a gostar da idéia? A ideia é que, pelo menos uma vez, você tenha a experiência de sair por aí, dona do seu próprio nariz. E, se for bom, repetir quantas vezes puder, por que não?

O caminho para o novo

Em seu livro A Fruitful Darkness (Uma escuridão frutífera, sem tradução no Brasil), a ecologista e antropóloga budista Joan Halifax diz que todo mundo tem uma geografia própria,que pode ser usada para mudanças. “É por isso que viajamos para lugares distantes. Precisamos renovar nós mesmos em territórios frescos e selvagens. Para alguns, essas são jornadas em que mudanças ocorrem intencional e cuidadosamente”, escreve.

A história é prova disso. O filósofo, teólogo e humanista Erasmo de Roterdã (1465- 1536) viveu e trabalhou em diversas partes da Europa em busca de conhecimento, experiências e idéias que, para ele, apenas o contato com o novo poderia trazer. Assim, virou o precursor da mobilidade acadêmica européia. Hoje existe, inclusive, um programa de intercâmbio entre universidades da União Européia com seu nome.

Porém, para a maioria das pessoas atualmente, esse sentido de sair em busca do novo, do fresco, do desconhecido, está meio de lado. Ainda que sobrevivam exemplos como os intercâmbios acadêmicos e os períodos “sabáticos”, a viagem exploratória há muito cedeu lugar à pura distração. Vivemos na chamada cultura da embriaguez, onde o que vale é o prazer. As pessoas viajam para descansar, se divertir, não para encontrar o desconhecido ou encontrar a si mesmas.

Nada contra a mordomia, o único problema é tornar a viagem um prolongamento da vida cotidiana. “As viagens hoje em dia são superprotegidas, as pessoas se armam, querem levar todo seu conforto.É cada vez mais difícil elas se soltarem ao risco, estenderem a borda do limite”, diz o psicanalista da Faculdade de Educação da USP Rinaldo Voltolini.

Agora é com você

Mas para ser transformadora, a viagem deve proporcionar um corte, uma perda de referências. E um acompanhante é sempre uma referência, talvez a mais forte de todas. “Viajar sozinho ajuda você a experimentar esse corte a que, se a realidade não lhe impõe, fica mais difícil chegar com as próprias pernas. Freud já dizia: o psiquismo é conservador, quando encontra um caminho não muda”, afirma Voltolini.

Mas não adianta olhar tudo como um turista. Para valer o efeito, é preciso entrar no clima, abrir espaço para o novo, e também para o improviso. Está aí algo a que não estamos acostumadas: dar oportunidade para o imprevisível. Tudo bem traçar um roteiro de viagem, mas nada de se prender a ele. A todo tempo a viagem pode se reinventar. Até parece que a cada dia é uma nova viagem, pois você nunca sabe as histórias e as pessoas que vão cruzar seu caminho.

Os outros

Quando está sozinha, você se abre mais para as pessoas. Primeiro nasce uma ânsia de se comunicar, afinal ninguém consegue passar horas ou dias a fio sem falar com ninguém. Depois você precisa saber onde dormir e comer ou onde fica a trilha para a montanha. E, assim, podem nascer amizades pelo caminho.
“Pessoas são pessoas em qualquer lugar. Mas, às vezes, no cotidiano, a gente perde essa dimensão humana. Viajando você desperta o novo no olhar”, diz o oceanógrafo paulista Antônio Soares, que não se lembra de ter feito alguma vez na vida uma viagem em grupo.

Tão encantador quanto a facilidade de se conectar com as pessoas é o desapego a elas. Muito bom se relacionar com as pessoas. Melhor ainda se isso não se tornar uma dependência. Pois no dia seguinte virão novas histórias com novos personagens. E assim a viagem volta ao início, à espera de um novo acaso que mude o dia, a semana, as férias e, no limite, a própria vida.

Viajar sozinha faz você ter mais tempo para se dedicar ao trajeto - e às suas próprias emoções Foto: Manuel Nogueira

Viajar sozinha faz você ter mais tempo para se dedicar ao trajeto – e às suas próprias emoções
Foto: Manuel Nogueira

 

Só, somente só

Há momentos em que nos sentimos entregues a nós mesmos, sem ninguém para compartilhar uma emoção. Porém, vem junto uma sensação de cumplicidade, de que você é a única testemunha daquela história. “Existe uma imersão nos próprios sentimentos. Você fica mais sensível e tem mais tempo para se dedicar aos acontecimentos”, diz o terapeuta de orientação antroposófica Corrado Bruno, de São Paulo.

A terapeuta e artista plástica Paula Marques, de São Paulo, já viajou muito sozinha. A intenção sempre foi curtir uma ocasião apenas dela, um momento de silêncio em que pudesse parar para prestar atenção no corpo, aquietar a mente. “As pessoas têm uma busca louca por estar sempre fazendo coisas, não perdendo tempo. Não olham para dentro”, diz.

Na Idade Média, no Japão, acreditava-se que as dificuldades de uma viagem eram desafios que se transformavam em poesia e canção. E, por que não, em filmes ou apenas em belas memórias. Se você quer encontrar sua própria história, escolha o destino e pegue a estrada. De verdade.

LIVROS
. Viagem à Itália, J. W. Goethe, Companhia das Letras
. A Arte da Peregrinação, para o Viajante em Busca do que lhe é Sagrado, Phil Cousineau, Ágora
. Viajante Solitário, Jack Kerouac, L&PM Pocket
. Guia Criativo para o Viajante Independente na Europa, Zizo Asnis e Os Viajantes, O Viajante/Trilhos e Montanhas

A inveja dos outros. Por Contardo Calligaris

Anos atrás, decidi que, salvo necessidade absoluta, em voo internacional, eu não viajaria mais de classe econômica. Quando não posso pagar pela executiva, é simples: não viajo.

A passagem de executiva dá direito ao uso de uma sala de espera confortável, que no Brasil é chamada de sala VIP (sigla de “very important person”, pessoa muito importante). Há um quê de idiota na ideia de que alguém se torne importante por pagar uma passagem mais cara que os outros.

Mas o que me interessa agora é o fato de que os passageiros de classe executiva, confortavelmente instalados na sala VIP, poderiam esperar até o fim do embarque da classe econômica; aí eles iriam ao portão já esvaziado e subiriam no avião.

Não é o que acontece. Convidados a embarcar antes dos outros, eles entram no avião sob o olhar dos passageiros de classe econômica e ocupam seus assentos espaçosos, situados na parte da frente da aeronave, de forma que os passageiros de econômica, a caminho de suas poltronas-suplício, são obrigados a contemplar o privilégio dos que já estão instalados na executiva.

Por que essa irracionalidade? É que o passageiro de executiva não compra apenas um tratamento mais humano e um espaço compatível com as formas médias de um corpo: ele compra também a experiência (desejável, aparentemente) de ser objeto da inveja dos outros.

o invejoso Salieri, retratado no Amadeus, de Milos Forman

o invejoso Salieri, retratado no Amadeus, de Milos Forman

 

Numa recente viagem à Europa, eu já estava instalado na executiva, tomando suco e lendo um livro quando uma senhora chinesa, a caminho de seu lugar na econômica, passou do meu lado e espirrou molhada e barulhentamente em cima da minha cabeça. Por sorte, não era época de gripe aviária. Mas é isto: a inveja é uma mistura de idealização, amor e ódio.

Circulando de madrugada, passo pela entrada de uma balada. Há uma longa fila de espera, há seguranças imponentes e há uma “hostess” que escolhe quem pode entrar. Em Nova York, entram até desconhecidos, se forem bizarros, interessantes e decorativos. Em São Paulo, parece que a lista de clientes VIPs é soberana. Os outros esperam noite adentro, tentando ganhar a simpatia da “hostess”. Vale a pena? O que acontecerá se eles forem admitidos? Pois é, será uma noite sensacional: eles tirarão fotos que postarão no Facebook e no Instagram.

Em geral, com as fotos, eles esperam receber a mesma inveja que eles destinam aos VIPs: por isso, exibirão poses parecidas com o que eles imaginam que os VIPs (os que entraram na balada há tempos) fazem quando se divertem (loucamente).

E o que fazem os VIPs? Pois é, essa é a parte mais estranha: os VIPs imitam as poses dos que os invejam e imitam, pois, eles constatam, essas são as poses que mais suscitam inveja.

De fato, na balada, muitos, VIPs e mortais comuns, apenas esperam a ressaca de amanhã. Mas, no círculo vicioso da inveja, a experiência efetiva é irrelevante; não é com tal ou tal outra vida e história concretas que se sonha: sonha-se ser o que os outros sonham.

A inveja é, por assim dizer, uma emoção abstrata: o privilégio não precisa dar acesso a uma fruição especial da vida (sensual ou espiritual, tanto faz), ele só precisa suscitar inveja. Ou seja, privilégio não é o que faço ou o que acontece de extraordinário em minha vida, mas o olhar invejoso dos outros.

Nesse mundo, em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas porque elas comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é “ser feliz”, mas parecer invejavelmente feliz.

Nesse mundo, o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos olhos dos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios de vida interior e pedir que nos invejem por isso.

O Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social. Nele, quase todos mentem, mas circula uma verdade de nossa cultura: o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar.

Comecei a escrever essa coluna depois de assistir a “Bling Ring: A Gangue de Hollywood”, de Sofia Coppola (uma tradução por “Bling Ring” seria “A Turma do Deslumbre”). A não ser que outro tema se imponha com força, voltarei a falar sobre o filme. Mas digo já: saí do cinema muito feliz por não ter levado nenhum adolescente comigo (respeitando a indicação para acima de 16 anos).

I’m your man. Leonard Cohen. Boa noite.

If you want a lover
I’ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I’ll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I’m your man
If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
I’ll examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
I’m your man

Ah, the moon’s too bright
The chain’s too tight
The beast won’t go to sleep
I’ve been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or I’d crawl to you baby
And I’d fall at your feet
And I’d howl at your beauty
Like a dog in heat
And I’d claw at your heart
And I’d tear at your sheet
I’d say please, please
I’m your man

And if you’ve got to sleep
A moment on the road
I will steer for you
And if you want to work the street alone
I’ll disappear for you
If you want a father for your child
Or only want to walk with me a while
Across the sand
I’m your man

If you want a lover
I’ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I’ll wear a mask for you