Abençoados os que Esquecem. Por Rejane Borges para o site Obvious

Artigo de Rejane Borges publicado originalmente no site Obvious (http://obviousmag.org/archives/2011/01/abencoados_os_que_esquecem.html)

Eu gosto de Charlie Kaufman por causa de sua sensibilidade curiosa, para não dizer esquisita. Seus roteiros são todos mais ou menos pelo avesso. Genais. Kaufman é um homem que lê um poema e inspirado escreve um roteiro. Assim nasceu “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004).

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“Feliz é a inocente vestal / Esquecendo-se do mundo e sendo por ele esquecida / Brilho eterno de uma mente sem lembranças / Toda prece é ouvida, toda graça se alcança”. Esse poema de Alexander Pope é citado no insólito “Brilho Eterno” do diretor Michael Gondry. O poema remete à idéia de que a única maneira de ser feliz é esquecer-se e tornar-se esquecido, pois somente na ausência de qualquer lembrança existe toda a graça. Pope fala de mentes imaculadas, corações resguardados, os quais não são assombrados por lembranças do que um dia foi e nunca mais será.

“Brilho Eterno” ostenta um elenco de grandes nomes como Jim Carrey, Kate Winslet, Mark Ruffalo, Kirsten Dunst, Elijah Wood e o veterano Tom Wilkinson – talentoso e premiado ator que já engrandeceu, além do cinema, produções da TV americana.

O roteiro foge completamente ao padrão de Hollywood – como era de se esperar, tratando-se de Kaufman, o mesmo gênio que escreveu o excêntrico “Quero ser John Malkovich” (Being John Malkovich, EUA, 1999) e “Adaptação” (Adaptação, EUA, 2002). Ele consegue atribuir às personagens sentimentos tão densos que quase necessitam de ser humanizados. Os labirintos narrativos do roteiro prendem o expectador a uma trama supra-sensível, estendendo-se à metafísica – característica de Kaufman. Fragmentado em diversos temas, como amor, passado, memória, solidão, etc., o filme permite variadas formas de interpretação.

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Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formam um casal que poderia ser considerado o mais “anti-herói” dos casais do cinema contemporâneo. Eles simplesmente não se adaptam – no entanto, se amam. Joel é um homem sensato, contido e tímido. Um pouco neurótico e melancólico. É mais pessimista e impõe limites aos seus próprios sonhos, preferindo os pés no chão. Clementine leva a vida menos a sério e é mais espontânea do que Joel, beirando uma irresponsabilidade inerente de quem é mais atrevido. Ela abusa da liberdade de se pronunciar e, apesar da aparência forte, é uma pessoa bem sensível.

O relacionamento é rompido e, frustrada, Clementine submete-se a um tratamento experimental que promete apagar da memória os momentos que viveu ao lado de Joel. No entanto, Joel descobre o que ela fez e, sentindo-se agredido, resolve fazer o mesmo. Porém, desiste de esquecê-la, por tomar consciência de que apagando-a de sua memória, apagará também uma parte de si mesmo. É então que começa uma saga dentro da mente de Joel para salvar Clementine do esquecimento e escondê-la em momentos de sua vida em que ela não esteve. Como sua infância, por exemplo.

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O surrealismo da trama é potencializado pela fantástica fotografia e cores da película. O filme joga com a plasticidade da nossa memória, um lugar cujo suporte físico é enorme. A trama possui um viés cômico e ao mesmo tempo romântico, com um ritmo atemporal.

Apesar da máxima “abençoados os que esquecem” – baseada em uma frase de Nietzsche – não há como abafar os ecos de relações ou circunstâncias que um dia vivemos. O filme oprime o comportamento prepotente do ser humano, que tenta recriar a memória para evitar a dor.

Assim como o amor define a nossa humanidade, a dor a define também.

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Quem assina a fantástica trilha sonora é o compositor norte-americano Jon Brion, com músicas que acompanham perfeitamente o ritmo da película. O filme levou a estatueta do Oscar pela categoria “Melhor Roteiro Original”, além de ter sido nomeado na categoria de “Melhor Atriz” pela espetacular interpretação de Kate Winslet
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Milo Manara. Mulheres e Nanquim. Por Victor Lisboa

Artigo de Victor Lisboa publicado originalmente no site Papo de Homem (http://papodehomem.com.br/milo-manara-mulheres-e-nanquim/)

“Não há palavras para explicar sua arte. Por mais que consigamos expressar em crônicas nossas impressões e nosso espanto, ficamos miseráveis aos pés do alta-mor no qual ele elogia a beleza no sentido em que Veronese a concebeu.

Cedo ou tarde, alguém terá que falar da maternidade de Manara, de como ele conseguiu dar a luz a muitas filhas brilhantes em uma só vida, tanta graça concentrada em um único momento: o momento da visão milagrosa em que a carne se torna um conto de fadas. Ele semeou suas filhas no mundo, cada uma delas com a capacidade de transformar tudo que está a seu redor.”

– Vicenzo Mollica, 2008.

Quem é o artista capaz de provocar comentários tão entusiasmados do escritor italiano Vicenzo Molicca? Aliás, nem parece ser entusiasmo o que move essas frases, mas sim uma devoção quase religiosa ao artista elogiado. E é fácil compreender o porquê, já que não se pode esperar menos de um artista que ousou resumir cinco mil anos de história humana em um punhado de ilustrações eróticas.

Quando comecei essa série Mulheres e Nanquim, tinha certeza de duas coisas.

A primeira é que, apesar do nome, as matérias não poderiam se limitar apenas ao trabalho em nanquim dos grandes artistas que dedicaram seu talento a desenhar o corpo feminino.

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A segunda é que, em algum momento, teria de falar de Milo Manara, um sujeito tão foda que conseguiu convencer ninguém menos que Frederico Fellini a converter dois roteiros originais do mestre do cinema italiano para o mundo dos quadrinhos.

E isso representaria encrenca.

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Encrenca pois Manara tem um enorme acervo de trabalhos, a maior parte de qualidade espetacular.

Isso torna muito difícil selecionar o que merece ser ou não publicado em uma matéria a seu respeito — pois, na verdade, tudo merece. Sua produção é tão cornucópica que é quase impossível fazer uma retrospectiva de todas as suas obras.

Feitas os devidos esclarecimentos, vamos ao que interessa.

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Milo Manara começou sua carreira em 1968, quando estava no primeiro ano da faculdade de arquitetura em Veneza.

Então com 23 anos, o jovem nascido em Luson, filho de uma professora e de um funcionário público começou a desenhar para a revista em quadrinhos Genius, da editora Furio Viano.

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Logo a seguir, passou a trabalhar para a editora Ediperiodici, conhecida na época por ser a principal publicadora de material erótico na Itália.

Na obra Memory, que faz uma retrospectiva de sua carreira, Milo Manara comenta sobre suas experiências iniciais:

“Em minha primeira história erótica, tentei expor todos os detalhes. Eu me propus um desenho idealizado por insistir nos aspectos cerebrais e intelectuais da história. Para distinguir meu trabalho da pornografia, tentei tratar mesmo as piores coisas com humor e sem evocar sentimentos de culpa.”

Milo Manara trabalhou para a Ediperiodici até 1975, e é desse período seu primeiro trabalho de fôlego: Jolanda de Almaviva contava a história de uma sedutora corsária que não tinha muito pudor diante de seus marinheiros.

Em 1978, Manara passa a publicar as histórias de Giuseppe Bergman na revista francesa À Suivre, uma reflexão moderna e pouco convencional sobre a possibilidade de vivermos uma aventura no mundo moderno.

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A primeira história do anti-herói de Manara tem o título de HP e Giuseppe Bergman, sendo que as iniciais HP são uma homenagem a outro grande quadrinhista italiano, Hugo Pratt, de quem Manara já era amigo

Manara revisitou seu personagem Giuseppe Bergman em vários momentos de sua longa carreira, ambientando suas aventuras sempre em locais pitorescos.

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Em Memory, o artista nos conta o processo criativo que envolve essas histórias:

“Viajei pela Ásia para elaborar as entrevistas de Giuseppe Bergman.

Essa foi uma viagem genuína, no estilo da clássica viagem de aventura. Quando viajo dessa forma, tiro um monte de fotos e faço rascunhos. Posso trabalhar em qualquer lugar, mesmo durante viagens.”

Mas é em 1983, com o primeiro volume de Clic (no original, Il Gioco) que Milo Manara alcança fama (e má-fama) internacional.

É na série Clic que Manara faz seus trabalhos mais ostensivamente eróticos. E é bom utilizar essa palavra, e não pornografia, pois o mestre italiano prefere deixar claro que há uma distinção entre uma e outra forma de expressão artística da sexualidade humana, como esclareceu em Memory:

“A indústria pornográfica existe porque atende a uma demanda, mas ela não soluciona nada. O consumidor pode apenas sentir culpa. Nós não devemos mais nos sentir envergonhados e, desde que haja certo grau de ironia, somos capazes de falar de qualquer coisa. Precisamos reconhecer nossas fantasias e encará-las abertamente.

É por isso que eu falo de fantasias evitando qualquer forma de sentimento de culpa. Não obstante, a linha divisória entre pornografia e erotismo é muito subjetiva. Não é só uma questão de qualidade. Se o trabalho nos faz felizes e atende nossas expectativas ao expressar nossas fantasias, então é erotismo. Eu endosso a afirmação de Woody Allen, de que “a pornografia é o erotismo dos outros”.

Explorando o corpo feminino em suas obras, seria Milo Manara machista? Em 2010, o artista fez uma visita ao Brasil. Em entrevista ao Estadão, falou sobre suas leitoras e de sua relação com as mulheres que conhecem seu trabalho de forte carga erótica:

“Há um monte de mulheres entre meus admiradores, eu posso mesmo dizer que elas são maioria. Com efeito, muitas garotas adoram meus desenhos e eu as encontro nos festivais, palestras, sessões de autógrafos. Não sei ao certo por que tenho sucesso, mas pode ser que elas se sintam bem representadas em minhas histórias, que elas compreendam que eu desenho mulheres com respeito.

De toda maneira, minhas heroínas são sempre mulheres à frente de todos os estereótipos, não submissas, independentes. No Clic, justamente, somente um artifício tecnológico que os homens carregam é que pode condicionar a vontade de uma mulher. Até então, ela os recusava. No meu erotismo, a mulher é sempre um sujeito sexual, mais que um objeto.”

Por isso, é prova do talento de Manara o fato de que ele, desenhando corpos femininos sempre inspirados em um mesmo modelo ideal, esguio e caucasiano, seja capaz de nos deleitar e surpreender a cada trabalho.

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A respeito de sua inspiração para desenhar corpos femininos, Manara deu-nos algumas pistas naentrevista dada ao site Café com Letras:

“Sou inspirado por todas as mulheres, não só as atrizes, jornalistas, esportistas, mas as meninas que encontro na rua. Minha mulher ideal é possivelmente o resultado das características de muitas mulheres que conheci, e eu tento tirar a própria essência.”

A partir de outubro de 1983, com textos de Hugo Pratt, seu mentor e amigo, Manara desenha para a revista Corto Maltese, e seu primeiro trabalho foi Verão Índio, considerada uma das obras-primas dos dois artistas.

Em 1986, Viagem a Tulum, roteiro de um filme de Federico Fellini que jamais seria realizado, é publicado em seis partes no jornal italiano de grande circulação Corriere della Sera. Manara é convidado a elaborar um desenho em preto e branco para ilustrar cada uma das publicações do roteiro. Nesse mesmo ano, o desenhista cria um cartaz de divulgação para o filme Intervista de Fellini.

Dessa parceria inicial com Fellini surge uma proposta: desenhar como quadrinhos todo o roteiro deViagem a Tulum.

Manara aceita o desafio e, em 1989, é publicada a sensacional versão para a nona arte do filme de Fellini, que recorre a símbolos junguianos e alusões aos livros de Carlos Castañeda, que conheceu em 1985, a fim de contar uma delirante história sobre a evolução da consciência humana.

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O mestre da nona arte assim registrou o trabalho em conjunto com o mestre da sétima:

“Com Fellini trabalhei de uma forma bem direta, nós nos encontrávamos com frequência e ele me deu vários detalhes sobre cada uma das páginas (ele realmente gostava de desenhar), com cenários, diálogos, etc. Portanto ele era o diretor e eu era apenas seu único câmera. Fellini amavelmente infundiu seu espírito, expressou-o das imagens aos diálogos, e dos diálogos à ação.”

Talvez pelo nome dos artistas envolvidos, ou pela aura de roteiro infilmável, esse Viagem a Tulumressoa de formas surpreendentes até hoje em dia.

Em 2011, a jornalista italiana Laura Maggiore escreveu um estudo de 216 páginas intitulado Fellini e Manara. No mesmo ano, foi produzido um curta-metragem, dirigido por Chelsea McMullan, narrando o trabalho de Fellini e Manara sob o ponto de vista desse último.

Ainda em 2011, o diretor italiano Marco Bartoccioni, junto ao antigo assistente de direção de Fellini, Tiahoga Ruge, produziu Sonhando com Tulum, longa que presta homenagem ao trabalho de Manara e Fellini.Mas retornemos a Manara. Em abril de 1991, Milo Manara e o não menos genial Hugo Pratt publicam El Gaucho, uma história situada na Argentina e que trata do contexto histórico da Guerra Anglo-Espanhola.

Em junho de 1992, ocorre nova parceria entre Manara e Fellini com a publicação, na edição nº 15 da revista Il Grifo, da obra Il viaggio di G. Mastorna detto Fernet, outro roteiro do famoso diretor italiano, também jamais transformado em filme.

Federico Fellini teve uma participação ainda maior na elaboração da versão de sua história para a nona arte, pois elaborou os storyboards que serviram de base para os desenhos de Manara.

Infelizmente, o falecimento de Fellini em outubro de 1993 deixou a obra incompleta.

Em 1996, Manara publica Gullivera, sua versão erótica para o clássico de Jonathan Swift.

Em 1999, publica o seu Kama Sutra, um trabalho sem brilho e desprovido do esmero artístico da obra homônima desenhada por Georges Pichard, embora tenha seus bons momentos.

Porém, Milo Manara se refaz da falta de criatividade repentina ao publicar, no mesmo ano, sua sensacional versão para O Asno de Ouro de Apuleio.

Na virada do milêncio, além de criar seu sensacional Bolero, Manara publica Tre ragazze nella rete, uma história sobre um trio de lésbicas que vitimiza e abusa de um desacordado criminoso sexual que foi pego, literalmente, com as calças na mão.

Em 2004, Milo Manara trabalha com o genial Alejandro Jodorowsky na narrativa sobre a história dafamília Borgia no período da renascença italiana.

Misturando fatos históricos com o imaginário erótico masculino, a série Borgia prometia ser um estrondoso êxito e um marco na carreira de ambos os artistas.

Infelizmente, o resultado final parece ter ficado abaixo das expectativas, tendo Jodorowsky decidido contar de forma apressada e em um último volume uma série de empolgantes eventos históricos que exigiriam uma elaboração mais minuciosa e demorada, digna do talento de Manara.

Em 2009, Manara publica pela Marvel/Panini italiana a obra X-Men: Ragazze in fuga, com enredo de Chris Claremont.

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Recentemente, em 2012, Manara publicou Contes Libertins, obra na em que ilustra as fábulas eróticas de La Fontaine.

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Milo Manara, como se vê, continua produzindo com excelência até hoje, criando cenas evocativas e histórias inspiradas sempre no erotismo e na mulher, como bem resumiu o roteirista italiano Vicenzo Cerami:

“Os temas desenvolvidos na obra de Milo Manara giram em torno do Amor e da Mulher. Hoje em dia, graças às novas estruturas da sociedade ocidental, o papel da mulher chega ao primeiro plano e torna-se um tema explosivo. Eros dissemina-se entre produtos de consumo e a reprodução da espécie.

Nossa época, dominada pelas leis do mercado, está conhecendo uma profunda transformação, sem dúvida irreversível. Os corpos femininos, enquanto ícones mais representativos de Eros, encontraram em Manara seu campeão definitivo.”

“Milo imediatamente percebeu que Eros não é lido em um corpo esculpido no nada. A beleza que ilumina o desejo é a luz que deita sobre um corpo, inundando de crepúsculo ou de noites inflamadas tudo à sua volta.”

“A sexualidade ocupa todo o espaço, enfrenta os contornos e permanece no escuro. Encontra-se na nudez nua. Manara trata frequentemente do passado, com cores que ilustram, ao fim das contas, a imagem da mulher moderna.”

 

Kevin Johansen. Party Girl (love you to death)

Some said the end is near
but it is just one more year
living in model fear
they were all dissapeared
but i’d just like to say
since no one is here to stay
before i lose my breath

I love you to death.

She is just a party girl

so my friends say
so don’t fall in love with her
she’ll just throw in your day
but i’ve already felt
and if i left to tell
before i’ll lose my breath
i love you to death. 

Cause i really think the world is hurt,
but she doesn’t really care about a thing
she does keeps on party
Yeah i really think the world is hurt,
She doesn’t notice anything
she does keeps on party, party

She is just a party girl
so my friends say
so don’t fall in love with her
she’ll just throw you away
and i already blue
so when i’m done in throw
before i lose my breath
i love you to death.

And i just like to say
since no one is here to stay

Love you to death

Blues Traveller. Maybe I’m Wrong

 

I wanna show you that anything is possible
I wanna show you that your wildest dreams can come true
And I swear someday I’m gonna figure out how to do just that
But until then, I guess trying is all I can do

Maybe I’m wrong thinking you want something better
Maybe I’m wrong thinking you got no problem making it through the night
Maybe I’m wrong about every little thing I’m talking about
Maybe I’m wrong, but just maybe, maybe I’m right

No, it’s none of my business but I think I can make you happy
But it really doesn’t matter if it’s me or it’s someone else
All that I know is that I think you’re kinda special
And one way or another gonna see that I can treat you well

Maybe I’m wrong thinking you want something better
Maybe I’m wrong thinking you got no problem making it through the night
Maybe I’m wrong about every little thing I’m talking about
Maybe I’m wrong, but just maybe, maybe I’m right

You seem to think that Lady Luck just doesn’t like you
Well, I’ve been trying to believe that the Lady just ain’t that dumb
Oh, just give her time to get here
And I’m sure that when she gets here
She’ll be really glad to be here when she comes.

Maybe I’m wrong thinking you want something better
Maybe I’m wrong thinking you got no problem making it through the night
Maybe I’m wrong about every little thing I’m talking about
Maybe I’m wrong, but just maybe, maybe I’m right

Maybe I’m wrong thinking you want something better
Maybe I’m wrong thinking you got no problem making it through the night
Maybe I’m wrong about every little thing I’m talking about
Maybe I’m wrong, but just maybe, maybe I’m right

Novas siglas, sem votos, já receberão mais de meio milhão de reais por ano. Do blog do Fernando Rodrigues

Posto originalmente publicado no Blog de Fernando Rodrigues (http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2013/09/24/novas-siglas-sem-votos-ja-receberao-mais-de-meio-milhao-de-reais-por-ano/)

 

O Tribunal Superior Eleitoral aprovou nesta 3ª feira (24.set.2013) dois novos partidos políticos: o Solidariedade e o Pros (o Partido Republicano da Ordem Social). O Brasil agora passa a ter 32 partidos políticos.

O problema não é o número de siglas, mas sim dar dinheiro a essas agremiações sem que muitas delas tenham recebido um voto sequer nas urnas.

No Brasil, há uma inversão de deveres: o Estado dá dinheiro aos partidos antes de eles terem provado ter apoio nas eleições.

Os partidos recebem dinheiro do Fundo Partidário, do rateio das multas eleitorais coletadas e ainda têm acesso semestral a emissoras de TV e rádio –que por sua vez pagam menos imposto por conta do uso do tempo cedido (ou seja, quem acaba pagando é o contribuinte).

No ano de 2012, o PEN (Partido Ecológico Nacional) que foi fundado em junho do ano passado, recebeu R$ 343 mil dos cofres públicos em apenas 6 meses.

Outras siglas pequenas como PPL e PCO receberam mais de R$ 600 mil cada uma.

É um grande negócio abrir um partido. Bastam 492 mil assinaturas de apoio espalhadas em pelo menos 9 Estados e pronto. Ganha-se o registro no TSE, que não tem o costume de olhar muito para acusações de fraudes na coleta de nomes. Uma vez obtida a aprovação, é correr até o guichê do governo e pegar uma mesada mensal nunca inferior a uns R$ 40 mil. Nada mal.

Eis, a seguir, uma tabela com o valor que partido recebeu de dinheiro público no país em 2012:

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“Sejamos Preguiçosos em Tudo, Exceto em Amar e em Beber, Exceto em Sermos Preguiçosos”: O Direito à Preguiça em 10 Frases Históricas. Por Fabio Hernandez

Artigo de Fabio Hernandez publicado originalmente no site Diário do Centro do Mundo (http://www.diariodocentrodomundo.com.br/sejamos-preguicosos-em-tudo-exceto-em-amar-e-em-beber-exceto-em-sermos-preguicosos-o-direito-a-preguica-em-10-frases-historicas/)

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Vivemos um culto ao trabalho que é a negação do bem estar. Então publico aqui dez trechos de um clássico que combate esse culto, O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue.  Que era genro do Marx, mas isso não vem ao caso. Foi escrito em 1880, mas tem uma estranha atualidade.

Lafargue tinha que ser francês, claro. Seu livro foi uma resposta a um outro que proclamava o Direito ao Trabalho.

1) “Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos.”

2)”O trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica. Comparem o puro-sangue das cavalariças de Rothschild, servido por uma criadagem de bímanos, com a pesada besta das quintas normandas que lavra a terra, carrega o estrume, que põe no celeiro a colheita dos cereais.”

3) ”Os filósofos da antigüidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses.”

4) ”Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.”

5) ”O provérbio espanhol diz: Descansar es salud (Descansar é saúde).”

6) “A nossa época é, dizem, o século do trabalho; de fato, é o século da dor, da miséria e da corrupção.”

7) “Introduzam o trabalho de fábrica, e adeus alegria, saúde, liberdade; adeus a tudo o que fez a vida bela e digna de ser vivida.”

8  )”Que se proclamem os Direitos da Preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem; que as pessoas se obrigue a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite”

9) “O  trabalho desenfreado é o mais terrível flagelo que já  atacou a humanidade.”

10) “A paixão cega, perversa e homicida do trabalho transforma a máquina libertadora em instrumento de sujeição dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os.”

Tony Bennet e Bill Evans. A Verdade e a Beleza Juntas. Por Renzo Mora para o Site Obvious

Artigo de Renzo Mora publicado originalmente no site Obvious (http://lounge.obviousmag.org/renzo_mora/2013/08/tony-bennett-e-bill-evans-a-verdade-e-a-beleza-juntas.html)

Há quase 4 décadas, um dos maiores cantores do mundo e o pianista mais sofisticado do jazz se encontraram para gravar álbuns que pouca gente ouviu

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É começo de 1980 e Tony Bennett está em uma cidade minúscula perto de Austin, no Texas, aonde irá se apresentar. O telefone toca e do outro lado está o pianista Bill Evans. “Eu fiquei surpreso com o fato dele conseguir me encontrar por lá” – conta Tony – “e disse ‘Bill, por que você ligou?’ Ele me respondeu em uma voz que parecia desesperada e cheia de desencanto: ‘Eu queria te dizer uma coisa: Só pense na verdade e na beleza. Esqueça todo o resto. Concentre-se apenas na verdade e na beleza. Isso é tudo’”.
Foi a última vez que eles se falaram e pouco tempo depois, em 15 de Setembro de 1980, Bill estava morto, aos 51 anos de idade.
Eles tinham se encontrado pela primeira vez em 1962, nos bastidores de uma festa em torno do jazz oferecida pelo Presidente Kennedy.
Quase uma década depois, Bennett estava perdido.
Era um tempo de ocaso das grandes vozes.
Em 1970, ele foi obrigado por sua gravadora a tentar um material mais comercial, em um esforço desesperado para elevar suas precaríssimas vendas.
Tony topou, mas reagia tão visceralmente às canções que empurravam para ele que vomitava depois de sair do estúdio.
Decidido a escolher seu caminho artístico, fundou seu próprio selo, o Improv Records – e foi com a independência de dono que resolveu gravar acompanhado apenas pelo pianista.

Houve dois encontros: The Tony Bennett/Bill Evans Album (1975 – lançado em um acordo quid pro quo com o selo de Evans, Fantasy) e Together Again (1976).

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Nenhuma preparação antecipou a entrada no estúdio. Bill e Tony escolhiam as canções e iam gravando na medida em que surgiam naturalmente.

 

Quase que para se vingar do que lhe tinha sido imposto anteriormente, Bennett escolheu canções pouco conhecidas, fugiu dos standards, selecionou coisas que quase ninguém conhecia além dos dois artistas.

 

Mas os ventos não estavam a favor da grande música.

Comercialmente, os álbuns nunca aconteceram.
Aliás, Evans era – e permanece até hoje – o pianista mais sofisticado do universo do jazz – e nada afasta mais rapidamente o grande público do que qualquer insinuação de sofisticação (o que enobrece ainda mais a iniciativa de Bennett, nesta empreitada acumulando as funções de intérprete e de empresário dono de gravadora).

A empresa do cantor – sem acordo com nenhum grande selo, sem equipe de vendas e de marketing – não conseguia distribuir seus LPs e faliu.

Se no plano econômico a situação era ruim, no plano pessoal não era nem um pouco melhor.
Evans e Bennett estavam perdendo suas guerras para as drogas.
Evans por vezes tocava o piano com apenas uma mão – a outra paralisada por incessantes injeções de heroína.
Pouco antes do último telefonema do pianista, Bennett – sem gravadora, sem empresário, com poucos shows agendados e perseguido pelo Imposto de Renda – quase morreu de uma overdose de cocaína em 1979.
Foi quando ele chamou seus filhos Danny e Dae para o socorrerem.
Funcionou.
Com a visão mercadológica da família, Bennett voltou a gravar as músicas que queria para um grande selo. Sinatra, por sua vez, estava de volta ao hit parade, puxando os demais vocalistas. “New York, New York” estava estourando na voz de Frank – por sinal, o homem que havia dito que Tony era o melhor cantor em atividade.
Os grandes intérpretes estavam gradualmente reencontrando seu público.
Tony conseguiu até a medalha de honra da notoriedade: aparecer no desenho animado “Os Simpsons”.
Depois disso, veio seu namoro com a geração MTV e a era dos grandes tributos – CDs dedicados a Sinatra, Billie Holiday e Fred Astaire. Elvis Costello e k d Lang dividiram os microfones com ele – antecipando os duetos de seus lançamentos mais recentes.

 

 

Em face de tudo o que veio depois, os encontros do cantor e do pianista permanecem como a lembrança de um período negro para os dois artistas.
Ninguém estava ouvindo na época e eles, corajosamente, decidiram fazer música um para o outro.
Mesmo os críticos não se encantaram com o material. Argumentam até hoje que a potência vocal de Bennett não se harmoniza com a delicadeza de Evans. Mas o fato é que as sessões passaram pelo crivo mais rigoroso que pode existir: os ouvidos dos dois participantes.
E, digam o que disserem, estes álbuns são cápsulas de – como diria Evans – verdade e beleza.
E a verdade e a beleza resistem ao tempo e à indiferença.