O retorno do Monty Python, em sessão única.

Michael Palin, Eric Idle, Terry Jones, Terry Gilliam e John Cleese irao mesclar esquetes novas e clássicas

Michael Palin, Eric Idle, Terry Jones, Terry Gilliam e John Cleese irao mesclar esquetes novas e clássicas

Eu ia começar esse post dizendo que se alguém ainda precisava de um motivo para marcar uma viagem para Londres em julho do próximo ano – alem do fato de que o Brasil vai estar um caos com a Copa do Mundo em andamento – ja nao precisava mais procurar. O Monty Python, ícones que redefiniram o humor britânico anunciou uma reunião, com show único, em 1 de julho de 2014 na O2 Arena em Londres. Mas como eu digo sempre, o problema com as grandes idéias eh que todos as tem. E bem rápido. A combinação do caráter único do show com preços acessíveis fez com que os ingressos se esgotassem em 43 segundos. Agora resta sempre a possibilidade de arriscar tudo, comprar uma passagem para Londres no período do evento – oh… que sacrifício! – e tentar comprar de um cambista. Sim. La, como ca, eles existem. O grupo promete material novo mesclado com cenas clássicas e animações criadas por Terry Gillian, que também eh cineasta, e dos melhores.

Tamanha demanda gerou quatro datas extras. Todas em Londres, todas em julho do próximo ano.

A coletiva de imprensa em si foi um mini-show. Todos entraram no palco ao mesmo tempo ateh o apresentador colocar um pouco de ordem. O que claramente nao conseguiu, pois eles se sentaram em lugares trocados. Satirizando eventos da FIFA, o apresentador disse que anunciaria as cidades candidatas a receber o show do Monty Python e entao anunciou que Joseph Blatter havia escolhido o Qatar como vencedor. Desfeita a piada e anunciado o show em Londres, começaram as perguntas e sendo a primeira de uma repórter espanhola, Michael Palin disparou: “Ninguém espera a inquisição espanhola”. 

Na minha opinião, de Simpsons a Porta dos Fundos, toda a melhor comedia contemporânea bebe um pouco na fonte do Monty Python. Basta ver os esquetes abaixo.

E o segredo do sucesso duradouro do Monty Python eh a qualidade. Nada que nao seja bom dura tanto tempo. Entre 1969 e 1974 estrelaram o programa de TV Monty Python Flying Circus. Ao cinema, legaram filmes que entram em qualquer lista das melhores comedias de todos os tempos, como Em Busca do GraalA Vida de Brian.

O forte do humor deles era o nonsense, somado a uma boa dose de humor fisico. Com quatro integrantes egressos das universidades de Oxford e Cambridge, eh natural que o grupo tivesse um humor “cabeçudo”. 

E os mesmos garotos (ainda com Chapman, jah falecido) alguns anos atras.

E os mesmos garotos (ainda com Graham Chapman, jah falecido) alguns anos atras.

Dava para ficar horas falando do Monty Python. Mas, na minha opinião, o momento definidor de sua grandeza é outro: o enterro de Graham Chapman, vitima de um cancer. A trupe já se havia desfeito, com mágoa e a habitual troca de ofensas. Todos eles subiram ao púlpito para prestar um tributo. Cleese, o mais talentoso, que dividia a liderança com Chapman, o menos engraçado, abriu os trabalhos com um discurso em homenagem ao amigo.

O funeral foi televisionado. Cleese aproveitou e lembrou que Chapman faria questão que ele fosse a primeira pessoa a falar “fuck” ao vivo na TV. Batata:

Graham Chapman, co-autor do “Esquete do Papagaio”, não existe mais.

Deixou de ser, partiu desta para melhor, descansa em paz, esticou as canelas, bateu as botas, nos deixou, foi-se, deu seu último suspiro e foi ter com o “Poderoso Chefão do Entretenimento do Céu”. E acho que estamos todos pensando que é muito triste que um homem com tanto talento, tanta capacidade e bondade, tanta inteligência, tenha nos deixado com apenas 48 anos, antes de ter conquistado muitas das coisas de que era capaz, e antes de ter se divertido o suficiente.

Bem, eu sinto que devo dizer algo sem noção como: já vai tarde, otário, espero que queime no inferno.

E a razão pela qual sinto que devo dizer isto é que ele nunca me perdoaria se eu não o fizesse, se eu desperdiçasse esta oportunidade de chocar vocês em nome dele.

Fecharam o memorial com o hino do humor negro: “Always Look On The Bright Side of Life”, que toca no final de “A Vida de Brian”, quando o personagem-título está na draga, crucificado entre dois ladrões.

Somadas, as idades dos velhinhos bate em 357 anos. Avisaram na coletiva de imprensa que haverá um plantão médico. O título provisório do show é “Um já foi, faltam cinco”. Até julho, trabalham com a alternativa “Dois já foram, faltam quatro”.

Para fechar, outro classico do grupo – e um dos meus favoritos: o jogo de futebol dos filosofos. Grecia x Alemanha.

Um título dedicado ao grande Mano Menezes. Por Jorge Murtinho

Artigo de Jorge Murtinho para o site da Revista Piaui (http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-do-futebol/geral/um-titulo-dedicado-ao-grande-mano-menezes)

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A noite de 19 de setembro de 2013 vai ficar na história do Flamengo. Após um recuo displicente de Adryan, o Atlético Paranaense virava o jogo no Maracanã e pouco depois o treinador Mano Menezes pegava todo mundo de surpresa com seu pedido de demissão.

O cara que escolhe a profissão de treinador e assume a direção técnica de um clube como o Flamengo, o São Paulo, o Cruzeiro, o Grêmio – enfim, qualquer um dos nossos grandes – não pode pedir para sair quatro meses depois, sob a inaceitável alegação de que “não conseguiu passar para o grupo aquilo que ele pensa sobre futebol”.

E o que Mano Menezes pensa sobre futebol? Que um volante lento feito o Cáceres é mais útil do que o Amaral – que é limitado, mas pelo menos é rápido? Que a melhor maneira de acertar um time é modificá-lo a cada partida, como se o campo de jogo fosse o laboratório de experiências de um cientista genial e incompreendido? Pergunte a qualquer torcedor rubro-negro qual é hoje o time titular do Flamengo: todos sabem. Pode ser fraco – e é –, mas hoje o Flamengo tem um time.

Qual a contribuição desse grande pensador ao futebol brasileiro? Ter conquistado um estadual falido e uma Copa do Brasil? É muito pouco para tamanha pose. Ter ficado dois anos à frente da nossa seleção sem conseguir montar um time confiável e fazendo convocações estapafúrdias?

No post de apresentação deste blog, publicado em 23 de maio, escrevi que ninguém entende de futebol. O texto exato era esse: “De futebol, gosta-se mais ou gosta-se menos. Acompanha-se mais ou menos. Mas, entender mesmo, no duro, ninguém entende.” Só que eu tenho a impressão de que alguns dos nossos técnicos exageram.

Entende de futebol um badalado treinador que larga o time no meio do campeonato após uma derrota até certo ponto normal, deixando clara sua descrença no elenco e sua covardia ante um possível rebaixamento, que talvez manchasse sua carreira de bicampeão da série B?

O que é ser um bom técnico de futebol? É chegar num clube, pedir e receber um monte de craques como reforços, e só ter o trabalho de distribuir as camisas? Ou é ter paciência e talento para montar o time sem estourar o orçamento, além de humildade para reconhecer que os jogadores não estão lá para pôr em prática aquilo em que ele, treinador, acredita, e sim que ele, treinador, está lá para adaptar suas crenças e sabedorias às características dos jogadores de que dispõe?

Esse ano temos recebido uma lição atrás da outra. Enquanto alguns dos nossos clubes escolheram ficar que nem cachorro tentando morder o próprio rabo, atrás dos gênios de sempre, o Atlético Mineiro foi campeão da Libertadores com o estigmatizado Cuca, o Cruzeiro deu um vareio no Campeonato Brasileiro com o pouco cobiçado Marcelo Oliveira e agora o Flamengo ganha a Copa do Brasil com um treinador em tudo e por tudo diferente dos falsos sabichões. Aliás: quando Mano jogou dez mil réis no veado e partiu, o Flamengo tentou contratar Abel Braga, provavelmente com um salário trinta vezes maior do que o de Jayme de Almeida. E vou lhes contar o máximo que Abel Braga conseguiria: livrar o time do rebaixamento e conquistar a Copa do Brasil.

Essa coisa, mais uma vez , do dinheiro, dinheiro, dinheiro, tomou outros exemplares catiripapos esse ano, e o maior deles talvez tenha sido o do Corinthians. Depois de conquistar Brasileirão, Libertadores e Mundial Interclubes com um time formado por jogadores relativamente baratos – Paulo André, Fábio Santos, Ralf, Paulinho –, o clube parece ter se deslumbrado, e não adianta alegar que quem pagou o Pato (sem trocadilho, juro) foi a Nike. Se foi, a diretoria do Corinthians precisaria de competência e credibilidade para chegar no patrocinador e falar mais ou menos o seguinte: gente, o que vocês acham de, em vez de gastar 40 milhões no Pato, pegar esse dinheiro, levar o Dedé, o Éverton Ribeiro, o Ricardo Goulart, o Dagoberto, o Júlio Baptista, mais uns quatro ou cinco, e ganhar tudo? Não há marketing mais eficiente do que um time vencedor. Deem uma olhada no ranking dos sócios-torcedores em www.futebolmelhor.com.br e vejam em que lugar essa vitoriosa mulambada desprezada por Mano Menezes já pôs o Flamengo.

Quando terminou o jogo de ontem, perguntado sobre seu absoluto ostracismo na esquecível Era Mano – nem no banco de reservas ficava –, Amaral sacou de um dos versículos de Lucas para afirmar que “os humilhados serão exaltados”.

Eu vi a coisa ao contrário. Enquanto quarenta milhões de rubro-negros mal conseguiram pegar no sono de tanta alegria, do alto da sua petulância, lá de cima da sua arrogância, o inexplicavelmente exaltado Mano Menezes foi dormir humilhado.

Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, ganha Prêmio SP de Literatura

Dos livros que li nesse ano, Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, foi sem dúvida o que mais gostei. Nessa semana, o livro foi escolhido Melhor livro de 2012 no Prêmio São Paulo de Literatura.

A história narra a busca da personagem principal – que não tem seu nome revelado em nenhum momento no livro – pela verdade sobre a morte de seu avô, num vilarejo de pescadores em Santa Catarina.

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A personagem principal vai para Garopaba após o suicídio do pai, aparentemente tentando resolver o mistério sobre a morte do avô além de, acredito, buscar uma certa paz de espírito por conta de um conflito envolvendo o irmão que aos poucos vai ficando claro para o leitor. Aliás, “aos poucos” é uma expressão que parece servir bem para toda a narrativa. Galera não tem pressa, não entrega tudo de bandeja para o leitor. Alguns elementos estão claros desde o começo, como o problema que a personagem tem em memorizar rostos. Mas é uma constante a sensação de que ainda há muito para se descobrir sobre a personagem (sempre “tu”, “ele” – é verdade, não aparece seu nome em momento algum), como se ler Barba Ensopada de Sangue fosse em partes montar um quebra-cabeça.

Quando li o primeiro capítulo, em que o pai conta à personagem principal que vai cometer suicídio e lhe pede que sacrifique seu cachorro – o que a personagem principal acaba não fazendo, dando margem ao surgimento de uma outra personagem fantástica da história, a cachorra Beta – fui imediatamente fisgado, tamanha a força do texto.

Um trecho:

[…] Não tem nada mais ridículo do que uma   pessoa tentando convencer a outra. Trabalhei    com persuasão minha vida toda, a persuasão é o maior câncer do comportamento   humano. Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que   querem e sabem do que precisam. Sei disso porque sempre fui especialista em   persuadir e inventar necessidades, e é por isso que tá cheio de plaquinha   naquela parede. Não tenta me dissuadir, se tu me convencesse a não me matar   tu me transformaria num aleijado, eu viveria mais alguns anos derrotado,   mutilado e doente, implorando por misericórdia. Isso é sério. Não tenta me   dissuadir. Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão   é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos   aconselhar. O que eu vou fazer tá decidido há muito tempo, antes de eu   próprio ter a ideia.

Henry Miller, um autor de todos os tempos. Por Roberto Amado

Artigo de Roberto Amado publicado originalmente no site Poucas Palavras (http://robertoamado.com.br/henry-miller-um-autor-de-todos-os-tempos/)

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Frequentemente me pedem indicações de livros e autores, mas nem sempre consigo agradar. Os novos tempos exigem leituras rápidas, de emoções intensas e se possível com muito erotismo.
Pensando nisso, achei o autor ideal — um vibrante escritor que esteve à frente do seu tempo, pleno de ousadia literária, transformador e causador e que rompeu padrões ao escrever livremente sobre sexo — em geral, baseado em suas próprias experiências, um verdadeiro libertino.
Henry Miller. Nasceu em Nova York em 1891 e não se pode dizer que teve uma carreira exemplar. Ao contrário. Enquanto a geração de escritores americanos da sua época brilhava, reunindo-se nos bistrôs de Paris, aproveitando-se de uma atmosfera criativa e da vida barata naquela época na França, Henri Miller perdeu o passo. Quando chegou em Paris, em 1927 o brilho da cidade não era o mesmo e ele passou por dificuldades, vivendo em condições precárias até o início da Segunda Guerra. Mas foi lá que conheceu uma de suas mais célebres amantes, a escritora francesa Anais Nin, com quem repartiu não só a cama, mas também uma literatura com linguagem pessoal e extremamente erótica. Formaram um casal e tanto.
“Ninguém escreveu dessa maneira antes, e ninguém certamente escreverá tão bem. A prosa de Miller é uma torrente, uma catarata, um vulcão, um terremoto […] um escritor-atleta, um fenômeno, um verdadeiro avatar de energia literária.”, disse, certa vez, o escritor Norman Mailer sobre seu conterrâneo. É uma boa definição. Henry Miller despeja sua alma quando escreve em golfadas de vômito íntimo, anarquista e sem pudor. “Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe”, dizia ele. Mas também dizia sobre si mesmo: Um gênio a procura de emprego: eis aí uma das visões mais tristes deste mundo. Não se encaixa em lugar nenhum, ninguém o quer. É desajustado, diz o mundo”.
Ele foi um desajustado. Até porque sua obra, considerada obscena, foi proibida por décadas a fio nos Estados Unidos, tornando-o reconhecido pelo seu talento, mas ignorado pelo grande público. Quando, nos anos 1960, seus livros foram por fim liberados nos EUA, tornou-se rapidamente um clássico, o que lhe permitiu uma velhice confortável até a sua morte, em 1980.
Da sua obra, destaca-se uma trilogia, “A Crucificação Encarnada” como ele chamava, com os títulos “Sexus”, “Nexus” e “Plexus”, nos quais retrata seu modo de vida, seu hedonismos, suas taras, sua relação com as mulheres, sua alma revoltada. Uma mente atormentada, mas ao mesmo tempo cheia de paixão e consciência.
Henry Miller adorava as mulheres e se relacionou intensamente com elas — mas não era partidário da fidelidade. “A monogamia é como estar obrigado a comer batatas fritas todos os dias”, dizia ele. Escrevia sobre sua vida utilizando recursos ficcionais e literários como ninguém ainda havia feito e dedicava-se á literatura com uma mistura inconfundível de gozo e dor. “Nenhum escritor é bom a não ser que tenha sofrido”.
Por tudo isso, e por uma extensa obra com qualidade superior literária, é que aconselho a leitura de sua obra plenamente convencido de sua atualidade e adequação.

Teoria quase antropológica sobre a mulher sexy. Por Rodolfo Viana

Artigo originalmente publicado no site Papo de Homem (http://papodehomem.com.br/teoria-sobre-a-mulher-sexy/)

Eu tenho uma teoria: a gente descobre a mulher realmente sexy apenas depois do sexo.

Nunca antes.

Nunca durante a conquista, momento em que elas, assim como nós, se armam para o jogo da sedução. Mulheres brincam com o cabelo e mordem o lábio de maneira displicente. Medem as palavras e até o gingado na hora de caminhar. Se sorrirem, então, é tiro e queda. Mas por mais que tudo isso aparente ser natural, são atos forçados, quiçá ensaiados durante toda a vida. São atos sem espontaneidade. A mulher que quer parecer sexy simplesmente atua.

Podemos chamar de armas, ferramentas, artifícios, depende de como você vê a tensão sexual entre um homem e uma mulher. Há vários nomes para o arcabouço gestual e verbal na hora da sedução. A verdade, contudo, é uma só: buscar ser sexy é fazer teatro. E, por isso, uma espécie de deliciosa falsidade. Não é ruim – inclusive pode ser lucrativo – e certamente é bastante divertido, mas não é puramente real.

Neste momento, a mulher não é a mulher, mas sim uma projeção dela criada por ela própria. Ela se reinventa, e essa nova versão tem prazo de validade. Ela não sustentará a brincadeira com os cabelos ou as mordidas no lábio pela vida toda. Tudo isso acaba quando a fome passa.

Este é o cozido. Ou ao menos seria, se Claude Lévi-Strauss fosse um pouco mais safado e se dedicasse às mulheres com devoção. Cozido, aqui neste texto, é a reutilização infinita e com algumas poucas variações dos artifícios de sedução de sempre. É usurpar um gesto aqui e uma frase ali para compor uma persona. Mulheres sempre deram mordidinhas no lábio porque isso sempre funcionou. E dar mordidinhas sempre haverá de funcionar.

(Se eu fosse mais ingênuo, diria que a mordidinha é o que rege nosso mundo. Ela é capaz de criar e destruir impérios. Não fosse a mordidinha, Cleópatra talvez não tivesse sido rainha, mas sim apenas uma mulher com um nariz estranho. Sem os dentes prensados contra os lábios, inclusive, talvez nenhum de nós estivesse aqui.)

O oposto do cozido é o cru. E é no cru que está o sexy de verdade.

Depois do sexo – principalmente depois do sexo bem feito, sem pressa –, não há mais nada a provar. Isso serve tanto para homens quanto para mulheres. Você não é pressionado a se mostrar o literal “pica das galáxias”; ela, por sua vez, também se despoja de seus artifícios.

Não existe nada mais lindo (Foto de @mari_graciolli por @eduardoqueiroz)

Não existe nada mais lindo (Foto de @mari_graciolli por @eduardoqueiroz)

 

A mulher está na cama, ainda nua, com cabelo todo emaranhado em si, in natura. É o estado mais cru do ser feminino. E se este estado cru for atraente aos olhos e ao apetite masculino, é este o momento em que uma mulher sexy de verdade se revela.

Para o homem, o momento pós-sexo é aquele em que quase nada acontece. Ele fala de como ama a mulher ou da última pataquada de Dwight em The Office. Isso é irrelevante. Ele já gozou e está temporariamente saciado de sua fome. Nos próximos minutos, ele é um inútil para a mulher e para si mesmo, pelo menos sexualmente. O homem que acabou de gozar não é nada além de uma samambaia.

A mulher não.

Há mulheres que despertam o desejo do macho mesmo depois do sexo, nos segundos seguintes ao orgasmo. Ela não sabe disso, mas naquele instante ela é a mulher mais sexy do mundo. O homem ainda está colocando sua circulação em ordem, levando sangue para onde deve, e mesmo assim já pensa:

Puta que o pariu, que mulher linda! Eu a desejo!

Eis que a fome volta. Seria justificável que a pulsão se esvaísse logo em seguida, ou até mesmo que talvez nunca mais houvesse desejo. Mas não no caso da mulher verdadeiramente sexy. O desejo é sempre recorrente. Ao homem, nada mais resta: ele não encontrará paz e está condenado. Mas feliz.

Esta, senhores, é a mulher mais sexy do mundo.

 

Mais lista. A dos livros que quero ler. Se Um Viajante Numa Noite de Inverno, de Ítalo Calvino

Continuando com as listas. Esta uma antiga, que tenho espalhada em diversos cadernos, arquivos de computador, cadernetas, etc. A dos livros que quero ler.

Li Italo Calvino pela primeira vez na década de 90. As Cidades Invisíveis, em um livro honestamente furtado da casa de uma pessoa que não lia. Achei o livro embaixo de um móvel, todo cheio de poeira e, dado o descaso, o furtei sem peso na consciência. Gostei muito e anotei como um autor a conhecer melhor. Hoje li o texto da Milu Leite, no site da Revista Obvious (http://lounge.obviousmag.org/parabolicando/2013/09/tome-a-posicao-mais-confortavel-entao-comece-com-ele.html) e me interessei muito por esta Se Um Viajante Numa Noite de Inverno, que foi para a lista:

“Italo Calvino faria 90 anos. Em outubro, dedique pelo menos uma de suas leituras a ele. Afivele-se na poltrona ou aceite o risco de ser levado para um lugar onde nada é definitivamente definido.

Ele te olha espantado e pergunta:
“Por que você está chorando?”
“É que acabo de ler o livro.”
Perplexo, ele tenta extrair o impossível:
“Mas, afinal, o que acontece nele pra te fazer ficar assim?”
“Nada. Quer dizer, muitas coisas. É que…”
Ele continua te olhando, mas agora você nota uma fagulha de deboche quando ele insiste:
“Quer dizer que você não sabe dizer do que se trata a história. Muito menos por que tá chorando…”
E você desiste de explicar qualquer coisa neste diálogo. Sai da cama, liga o computador e começa a escrever:
“Se um viajante numa noite de inverno”, livro lançado por Italo Calvino na Italia em 1979, me dá vontade de gritar. Também me dá vontade de chorar. A minha opção por chorar, entretanto, se sobrepõe, porque não quero assustar ninguém. As pessoas são capazes de entender que um livro as faça chorar. Antes de gritar, a vontade foi outra. Tive enjoo. Uma contração na boca do estômago somou-se a um ritmo cardíaco galopante e ambos me trouxeram uma sensação inédita, que eu só defino aqui como enjoo porque é o que consigo dizer, é a palavra que seleciono num emaranhado de intensidades. Podia ser também amor. Ou inveja. Ou a descoberta de um demônio.

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O que aconteceu na história foi nada e foram muitas coisas. Muitas coisas dentro de mim. Quando te disse isso na cama, acertei. Vamos ver se as palavras me explicam. O livro é composto de dez histórias que se interrompem logo que o leitor começa a ser fisgado por elas. Entre uma história e outra, existem o Leitor e a Leitora, cujas histórias se entrelaçam na busca pela continuidade das histórias interrompidas. Cada uma dessas histórias interrompidas é narrada por um “eu”, e elas se passam em países diferentes e envolvem personagens sempre às voltas com alguma busca ou espera. Esses “eus” vão falar sobre coisas que o farão refletir sobre a vida, a representação, a ficção, a mentira. A literatura, você será obrigado a reconhecer, é o protagonista oculto de todas essas histórias. A maneira de fazê-lo refletir sobre isso vai mudar e dar voltas sobre si mesma incontáveis vezes, levando-o a crer que a ideia de finitude jamais poderá ser aplicada às narrativas. Você vai lembrar das Mil e uma noites e, estranhamente, pela primeira vez, você vai achar que aquilo é pouco, porque o livro de Italo Calvino é feito de camadas, é verdade, mas também de uma mistura entre elas e os pontos de vista que é possível ter quando escolhemos ficar (melhor dizer “mergulhar”) em uma delas.
“Se um viajante numa noite de inverno” é um espanto. Um escândalo. Um topázio. Um sonho. Um castelo isolado no topo de uma montanha, cuja porta está aberta. Sobre ele, o céu corre atrás de nuvens que mudam constantemente de forma. Gostaria de acreditar que algum dia voltarei a ler um livro como este. Essa dúvida, percebo agora, me faz chorar.

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Italo Calvino faria 90 anos em outubro deste ano. Morreu aos 60 anos, para azar da humanidade. Nascido em Cuba durante uma viagem de seus pais, viveu na Itália e chegou a lutar na guerra, na Resistência Italiana, contra o exército nazista. Na juventude, trabalhou como jornalista no periódico comunista L’Unità.
Escreveu, a partir de 1950, obras totalmente inovadoras, como “O visconde partido ao meio” (1952), “O barão nas árvores” (1957), “O cavaleiro inexistente” (1959), “As cidades invisíveis”. Seu último livro de ficção foi “Palomar” (1983).

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Alguns comentários sobre o autor e sua obra:
“O escritor italiano tece a sua narrativa privilegiando a combinatória, a ordem, as simetrias (mesmo que sejam simetrias entre contrastes), sem preocupar-se em definir as suas obras, pois ela supera qualquer categoria, em tramas que podem muito bem misturar eventos históricos – comprováveis – com intrigas criadas pelo próprio escritor.” Bruna Fontes Ferraz, em Zunái – Revista de Poesia e Debates.
“Na narrativa de Calvino descobrem-se a cada movimento outras vozes, citações e referências a outros textos e estilos, desdobramentos de uns nos outros, numa rede crescente de narrativas que poderia ser desenvolvida e desdobrada infinitamente. Se um viajante poderia ser pensado, assim, como uma espécie de enciclopédia sobre o literário, como um livro no qual os saberes sobre a literatura são reunidos e colocados em diálogo, num movimento que pretende não a totalidade do conhecimento, mas a produção de saber a partir do diálogo entre as mais diversas informações e reflexões sobre a literatura.” Maria Elisa Rodrigues Moreira, em Revista Eutomia.