Pânico na Elite Vermelha. Por Guilherme Fiuza, parao Jornal O Globo

Artigo de Guilherme Fiuza publicado na edição do Jornal O Globo de 30/08/2014

 

O escritor e jornalista Guilherme Fiuza

O escritor e jornalista Guilherme Fiuza

Pânico na elite vermelha

Armínio Fraga foi o comandante da etapa de consolidação do Plano Real — a última coisa séria feita no Brasil

Pela primeira vez em 12 anos, os companheiros avistam a possibilidade real de ter que largar o osso. Nem a obra-prima do mensalão às vésperas da eleição de 2006 chegara a ameaçar a hegemonia dos coitados sobre a elite branca. A um mês da votação, surgem as pesquisas indicando que o PT não é mais o favorito a continuar encastelado no Planalto. Desespero total.

Pode-se imaginar o movimento fervilhante nas centrais de dossiês aloprados. Há de surgir na Wikipédia o passado tenebroso dos adversários de Dilma Rousseff. Logo descobriremos que foram eles que sumiram com Amarildo, que depenaram a Petrobras, que treinaram a seleção contra os alemães. É questão de vida ou morte: como se sabe, a elite vermelha terá sérias dificuldades de sobrevivência se tiver que trabalhar. Vão “fazer o diabo”, como disse a presidente, para ganhar a eleição e não perder a gerência da boca.

O Brasil acaba de assistir à queda de um avião sobre o castelo eleitoral do PT. Questionada sobre as investigações acerca da situação legal da aeronave que caiu, Dilma respondeu que não está “acompanhando isso”, e que o assunto não é do seu “profundo interesse”. Altamente coerente. Se a presidente e seu padrinho não “acompanharam” as tragédias no governo popular — mensalão, Rosemary e grande elenco — não haveria por que terem “profundo interesse” numa tragédia que veio de fora. Eles sempre fingiram que estava tudo bem e o povo acreditou, não há por que acusar o golpe agora. Avião? Que avião?

Melhor continuar arremessando gaivotas de papel, para distrair o público. Até o ministro decorativo da Fazenda foi chamado para atirar a sua. Guido Mantega, como Dilma e toda a tropa, é militante de Lula. O filho do Brasil ordena, eles disparam. Mantega já chegou a apresentar um gráfico amestrado relacionando o PAC com o PIB — um estelionato intelectual que o Brasil, como sempre, engoliu. Agora o homem forte (?) da economia companheira entra na campanha para dizer que Armínio Fraga desrespeitou as metas de inflação. Uma gaivota pornográfica.

Para encurtar a conversa, bastaria dizer que Armínio Fraga foi um dos homens que construíram aquilo que Mantega e seu bando há anos tentam destruir. Inclusive a meta de inflação. Armínio foi o comandante da etapa de consolidação do Plano Real — última coisa séria feita no Brasil — enfrentando o efeito devastador da crise da Rússia, que teria reduzido a economia nacional a pó se ela estivesse nas mãos de um desses bravateiros com estrelinha. Mantega e padrinhos associados devem a Armínio Fraga e aos realizadores do Plano Real a vida mansa que levaram nos últimos 12 anos. E deve ser mesmo angustiante desconfiar pela primeira vez que essa moleza vai acabar.

Se debate eleitoral tivesse alguma ligação com a realidade, bastaria convidar os companheiros a citar uma medida de sua autoria que tenha ajudado a estruturar a economia brasileira. Uma única. Mas não adianta, porque, como o eleitorado viaja na maionese, basta aos petistas dizer — como passaram a última década dizendo — que eles livraram o Brasil da inflação de Fernando Henrique. A própria Dilma foi eleita em 2010 com esse humor negro, e jamais caiu no ridículo por isso. Com a fraude devidamente avalizada pelo distinto público, Guido Mantega pode se comparar a Armínio Fraga e entrar em casa sem ter que esconder o rosto.

Em meio às propostas ornamentais, aliás, Armínio é o dado concreto da corrida presidencial até aqui. Nada de poesia, de “nova política”, de arautos da “mudança” — conceito tão específico quanto “felicidade”, que enche os olhos da Primavera Burra e dos depredadores do bem. Armínio não é terceira, quarta ou quinta via, nem a mediatriz mágica entre o passado e o futuro. É um economista testado e aprovado no front governamental, que não ficará no Ministério da Fazenda transformando panfleto em gaivota.

O PSDB, como os outros partidos, adora vender contos de fadas. Mas seu candidato, Aécio Neves, resolveu anunciar previamente o seu principal ministro. Eis a sutil diferença entre o compromisso e a conversa fiada.

Marina Silva também é uma boa notícia. Só o fato de ser uma pessoa íntegra já oferece um contraponto valioso à picaretagem travestida de bondade. Nunca é tarde para o feminismo curar a ressaca dos últimos quatro anos. O que seria um governo Marina, porém, nem ela sabe. Se cumprir a promessa de Eduardo Campos e empurrar o PMDB S.A. para a oposição, que grande partido comporia a sua sustentação política? Olhe em volta e constate, com arrepios, a hipótese mais provável: ele mesmo, o PT — prontinho para a mudança, com frete e tudo.

Marina vem do PT e está no PSB, cujo ideário é de arrepiar o maior sonho cubano de José Dirceu. E tentar governar acima dos partidos foi o que Collor fez. Que forças, afinal, afiançariam as virtudes de Marina?

A elite vermelha está pronta para se esverdear.

Guilherme Fiuza é jornalista

 

Em que ponto da cidade sua memória é mais feliz? Por Rafael Nardini

Artigo de Rafael Nardini publicado originalmente no site Papo de Homem

Para os padrões sedentários da esmagadora maioria dos amigos mais próximos, até que tenho me virado bem.

Não fechei a conta — até porque faço questão de variar o traçado –, mas caminho pelo menos 5 km por dia. Não sou o único por aqui, mas nada comparável a Paul Salopek, 51, jornalista com dois prêmios Pulitzer que decidiu refazer a trilha que teria sido realizada pela espécie humana em sua trajetória pela Terra.

Um repórter, sete anos, 33.796km, 60 mil anos de história da humanidade e 30 milhões de passos que serão dados. Sai de Etiópia e só para na Patagônia

Um repórter, sete anos, 33.796km, 60 mil anos de história da humanidade e 30 milhões de passos que serão dados. Sai de Etiópia e só para na Patagônia

 

Dado o primeiro passo em fevereiro, na região de Herto Bouri, na Etiópia, o americano não vai parar até chegar à Patagônia, o que está previsto para se concretizar somente em 2020. No blog de viagem Out Of Eden Walk, mantido na National Geographic, Salopek conta ser comum encontrar lobos pendurados em árvores por pastores da região de Surum, na Arábia Saudita.

Não é por uma razão grandiosa para a humanidade que gasto a sola dos calçados. Acontece quecaminhar é um pedaço de liberdade bem particular para quem, como eu, não guia bicicleta nem motos e decidiu abandonar de vez o automóvel.

Uma parada rápida para pensar me sugere que andar representa não apenas nossa evolução como espécie, mas a busca pelo desconhecido, pela transitoriedade, pela expansão de horizontes e pela sobrevivência, instintos que teriam feito o Homo Sapiens percorrer os cinco continentes após surgir — como apontam as evidências científicas — na “Mãe África”.

Para se equilibrar sobre as próprias pernas é necessário, primeiramente, engatinhar, coisa que as espécies que antecederam personagens como você, eu, Paul Salopek, Gisele Bündchen, a caixa do supermercado ou qualquer outro não conseguiram eliminar de uma vez por todas.

O fato de as distâncias que podem ser percorridas por um ser humano terem se alargado tanto com o emprego da tecnologia nos privou do doce e livre caminhar bípede. Acrescente aí a necessidade de atravessar megalópoles inteiras para trabalhar, estudar ou ter acesso às mínimas oportunidades ao lazer.

Quem tem a possibilidade, tem tentado sair da caixa. Os passeios socráticos na Grécia Antiga, os reflexivos (a Nietzsche é atribuída a frase “todos os grandes pensamentos são concebidos ao caminhar”) ou exploratórios pela cidade têm ganhado seguidores.

Por experiência, há uma cidade inteira entre as ruas Professor João Arruda, em Perdizes, e Ministro Ferreira Alves, na Pompeia. Não há serviço que não se encontre (descobri uma costureira ótima, ainda que não seja lá tão em conta assim), não há culinária sem representação.

Se o Nietzsche soubesse do amor que os hipsters têm por ele…

Se o Nietzsche soubesse do amor que os hipsters têm por ele…

Há muitos outros, além do intrépido Salopek, que vivem profissionalmente dos passos da existência solitária:

“Pedestres são ‘praticantes da cidade ‘, pois a cidade é feita para ser percorrida. A cidade é uma linguagem, um repositório de possibilidades, e caminhar é o ato de falar essa língua, de escolher entre essas possibilidades.”

Rebecca Solnit, em seu livro Wanderlust: The History Of Walking).

Mais a fundo vai o fotógrafo, antropólogo e arqueólogo Bradley Garrett, que passou os últimos cinco anos explorando esgotos, bunkers, túneis de metrô e arranha-céus. De Detroit ao Cambódia, Garrett registrou um pouco de tudo em seu livro Explore Everything.

Para que a mínima exploração urbana funcione (e ela já será útil quando você perceber que não há mais necessidade de entrar nas masmorras modernas que foram nomeadas shoppings centers), é necessário encarar sua cidade como se fosse um turista voraz. Lembra aquele sorriso que surgiu ao descobrir um boteco que guardava semelhança com seu bairro enquanto perambulava por Montevidéu?

É assim que se faz.

A coisa é manter a cabeça erguida e mente pronta para recolher informações. Analisar os prédios, as marquises, as árvores, as calçadas, as padarias, as bancas, os velhinhos, os operários e os motoristas — seres deixaram de engatinhar, no entanto, ainda não ultrapassaram o uso de artifícios primários como a buzina. Parece fácil, mas para quem viveu boa parte da última década com os olhos grudados nos livros para não enlouquecer nos longos deslocamentos ou com o aperto e os atrasos do transporte público, a reeducação passa por deixar de flanar pelas calçadas (abraço,Walter Benjamin) e começar a vivê-las plenamente..

É preciso valorizar o cansaço de cada subida que sua mente ainda não gravou e comemorar internamente a gloriosa decida inesperada. Você há de perceber que é desafiador desprogramar a cabeça. Mesmo com certo esforço, parece que as pernas esboçam trajetos padrões.

Já me peguei inúmeras vezes me enganando. De toda maneira, como tudo na vida (não custa lembrar), no fundo, as cidades são suas experiências pessoais, únicas, dentro de seus próprios parâmetros. Não há chances de um morador de Paraisópolis enxergar essa gigante e destrambelhada chamada São Paulo com os mesmos olhos de um funcionário-padrão-bem-remunerado-que-recebe-décimo-quinto-salário-no-banco-em-que-trabalha.

Isso posto, chego ao projeto projeto colaborativo Map Your Memories, iniciativa da então estudante de Harvard Becky Cooper.

Da experiência iniciada em 2009 surgiu o livro Mapping Manhattan – A Love (And Sometimes Hate) Story in Maps by 75 New Yorkers, compilado em que os moradores da cidade completam desenhos cartográficos com suas memórias afetivas.

E se alguém resolvesse copiar a ideia e eu fosse incumbido de fazer a minha versão, desenharia um par de sapatos num macaco caminhando em posição ereta no meio de carros, ônibus e um sem número de personas estranhas e amigáveis, entretanto.

Para mostrar que caminhar é preciso. E se faz passo a passo.

Bukowski: a loucura de escrever para não enlouquecer. Por Roberto Amado

Artigo de Roberto Amado publicado originalmente no site Poucas Palavras

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Todo escritor tem um pouco de Bukowski — e não só os escritores. Vai me dizer que você nunca trocou aquela mulher chata, com quem você acabou de transar, por um bom uísque, nunca caiu na sarjeta disposto a encerrar um capítulo da vida, nunca desejou dar um pé no rabo do seu chefe e nunca praticou um sarcasmo impiedoso contra o mundo mesquinho?

Charles Bukowski foi um escritor alemão, radicado nos Estados Unidos, que morreu em 1994, publicou poemas, contos e, principalmente, romances que faziam os puritanos, os caretas e os legalistas ficarem de cabelo em pé.  Sim, ele escrevia sobre sexo, bebedeiras, vida perdida nas noites mais vadias, mulheres mais vadias perdidas na noite.

Muitos consideram Bukowski como uma expressão extemporânea do movimento literário beatnik, que aconteceu na década de 1950 reunindo os autores mais “fora da casinha” da época: gays, drogados, maníacos e revoltados  — e brilhantes. Mas Bukowski apareceu tempos depois, revigorando a velha chama do hedonismo, como um cachorro vira-lata pulguento cheio de sabedoria. Seus escritos são, sim, tão obscenos como um velho tarado onanista, tão sábios como uma velho onanista tarado, tão cheios de vida como um tarado velho onanista. Escreve de maneira encantadora, coloquial, envolvendo o leitor naquele seu mundo pervertido, embriagado, mal-amado e inquieto e — e quando você termina de ler, parece que ficou 11 dias sem tomar banho.

A sua obra é extensa como foram suas bebedeiras. E não há dúvida de que refletem diretamente o estilo de vida do autor. “Cartas na Rua”, foi o primeiro livro a ser editado no Brasil e tem uma levada light: é a história de um carteiro e suas desventuras na rua. Outros vieram de enxurrada sempre pela editora LPM e consagraram  sua literatura com bafo alcoólico também pelas bandas daqui. Cheque só essa pérola de sabedoria romântica-sexual:

“Mulheres: gostava das cores de suas roupas; do jeito delas andarem; da crueldade de certas caras. Vez por outra, via um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina. Elas levavam vantagem sobre a gente: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas. Enquanto os homens viam futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam na gente, concentradas, estudiosas, decididas: a nos aceitar, a nos descartar, a nos trocar, a nos matar ou simplesmente a nos abandonar. No fim das contas, pouco importava; seja lá o que decidissem, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura.”

Sim, Bukowski eternizou a solidão e a loucura do homem violentado pela paixão por um rosto inocente, belo e feminino cuja crueldade só podia ser aplacada pelo álcool, se possível  fazendo um glut-glut na garrafa, estirado numa calçada imunda de Los Angeles, atravessando o caminhos das putas, veados e travestis  com quem irmanava suas angústias. ” Life is a shit and then you die”.

Só mesmo ele pôde descrever uma mulher trepando com um macaco com um surpreende olhar afetuoso . Ou descrever uma cena romântica entre um homem e uma mulher em que o clímax é um peido triunfal.  Ou, ainda, fazer da vida dilacerada de um ser execrado uma obra genial.

“Encontrei-me com Pete e Selma. Selma estava esplêndida. O que se pode fazer para arranjar uma Selma? Os cães acabam sempre com cães. Ela era bela e pertencia a um homem, a um professor da faculdade. Não era muito justo. Os sedutores bem educados. A educação era o novo deus, e os homens educados os novos senhores do mundo”.

Era assim que ele lançava um olhar distante a esse mundo, feito de pessoas limpas, educadas, belas, bem sucedidas, enquanto ele exorcizava sua exclusão com palavras que não mediam sarcasmos e dor. Pobre e perdulário, bêbado e lúcido, inquieto e sereno — pleno de contradições, mas sobretudo intenso: “Você pode ser um porco, mas tem que ter estilo”, dizia ele, com um cigarro apagado na boca e barba por fazer. E assim ele levou uma literatura crítica e sem pudor e outros que se danem.

Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura. Não sou eu o autor desta frase. É ele mesmo.

The Breathtaking Love Letters of Violet Trefusis and Vita Sackville-West. Por Maria Popova

Artigo de Maria Popova publicado originalmente no site Brainpickings

“All the hoardings of my imagination I have laid bare to you. There isn’t a recess in my brain into which you haven’t penetrated.”

 

 

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More than a decade before her love affair with Virginia Woolf, in an era when LGBT Pride was as laughable a concept as LGBT shame was culturally codified, English author Vita Sackville-West fell in love with another woman, the writer and socialite Violet Keppel, and the two embarked upon one of the most intense and turbulent affairs in literary history. The exquisite epistolary records of their relationship, which was later fictionalized in Virginia Woolf’s groundbreaking novel Orlando, span more than a decade and are captured inViolet to Vita: The Letters of Violet Trefusis to Vita Sackville-West (public library) — an immensely moving addition to history’s most beautiful LGBT love letters, preserved at Yale University’s Beinecke Rare Book and Manuscript Library, brimming with some of the most urgently, breathtakingly passionate uses of the English language.

Violet and Vita had been friends since childhood, but began forming an intense romantic bond during their teenage years and eventually became lovers in their twenties. The surviving letters, beginning in 1910 when Violet was sixteen and Vita eighteen, capture the exultant and anguishing whirlwind of love so passionate yet so utterly quixotic in the context of their era’s bigotry toward same-sex romance.

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In October of 1910, 16-year-old Violet replies — in French, and with exquisite candor — to a letter in which Vita had asked her why she loves her:

I am in the act of asking myself if I ought to reply to your question? A question furthermore most indiscreet and which merits a sharp reprimand. Reply, don’t reply, reply! Oh to the devil with discretion!

Well, you ask me pointblank why I love you… I love you, Vita, because I’ve fought so hard to win you… I love you, Vita, because you never gave me back my ring. I love you because you have never yielded in anything; I love you because you never capitulate. I love you for your wonderful intelligence, for your literary aspirations, for your unconscious (?) coquetry. I love you because you have the air of doubting nothing! I love in you what is also in me: imagination, the gift for languages, taste, intuition and a host of other things…

I love you, Vita, because I have seen your soul…

Over the decade that followed, the two remained lovers even though Vita married the wealthy writer and politician Harold George Nicolson in 1913. They had a mutually agreed upon open marriage. In 1914, Vita gave birth to the first of their two sons and Violet, at her “own sarcastic request,” became a godmother. She and Vita continued to correspond passionately and to steal the occasional weekend getaway for consummating their love.

Violet came to call Vita “Mitya,” short for “my Dmitri,” a character from Borodin’s opera Prince Igor, the voluptuous music of which Violet identified with her beloved — it was a choice particularly poignant in its gender-reversal, as Violet wrote in a number of her letters that she would’ve married Vita if she were a man so the two could live happily ever after. But with marriage equality a century away, the fantasy of marriage was only possible if she envisioned her beloved as a male character.

Despite the increasingly forbidding circumstances of their lives, Violet fell deeper and deeper in love. In a letter from the spring of 1918, she writes:

Drunk with the beauty of Mitya! All today I was incoherent. I tell you, there is a barbaric splendor about you that conquered not only me, but everyone who saw you. You are made to conquer, Mitya, not be conquered… You could have the world at your feet.

A few weeks later, at the end of a few days together, Violet writes:

It was Hell leaving you today. God how I adore you and want you. You can’t know how much… Last night was perfection… I am so proud of you, my sweet, I revel in your beauty, your beauty of form and feature. I exult in my surrender today…

Mitya, I miss you so — I don’t care what I say — I love belonging to you — I glory in it, that you alone … have bent me to your will, shattered my self-possession, robbed me of my mystery, made me yours, yours, so that away from you I am nothing but a useless puppet! an empty husk.

In July of 1918, the reality of their impossible love sets in more firmly and Violet writes in anguish:

What sort of a life can we lead now? Yours, an infamous and degrading lie to the world, officially bound to someone you don’t care for…

I, not caring a damn for anyone but you, utterly lost, miserably incomplete, condemned to leading a futile, purposeless existence, which no longer holds the smallest attraction for me…

I never thought I would (or could) love like this.

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Violet’s desperation swells all the more painfully if one were to imagine how their relationship might have unfolded had marriage equality been around at the time — a wistful realization that Violet herself touches on with remarkably prescient poignancy in a letter from August of 1918:

Oh, Mitya, come away, let’s fly, Mitya darling — if ever there were two entirely primitive people, they are surely us: let’s go away and forget the world and all its squalor — let’s forget such things as trains, and trams, and servants, and streets, and shops, and money, and cares and responsibilities. Oh god! how I hate it all — you and I, Mitya, were born 2000 years too late, or 2000 years too soon.

Later that night, Violet writes:

I want to see you. I want to hear your voice. I want to put my hand on your shoulder and cry my heart out. Mitya, Mitya, I have never told you the whole truth. You shall have it now: I have loved you all my life, a long time without knowing, 5 years knowing it as irrevocably as I know it now, loved you as my ideal…

Nine days later, on August 25, Violet can no longer contain her longing and pleads with Vita to go away together, oscillating between prostrate vulnerability and fervent ultimatum:

My days are consumed by this impotent longing for you, and my nights are riddled with insufferable dreams… I want you. I want you hungrily, frenziedly, passionately. I am starving for you, if you must know it. Not only the physical you, but your fellowship, your sympathy, the innumerable points of view we share. I can’t exist without you, you are my affinity, the intellectual “pendent” to me, my twin spirit. I can’t help it! no more can you! … We complete each other…

Mitya, we must. God knows we have waited long enough! Something will go “snap” in my brain if we wait any longer and I shall tell everyone I know that we are going away and why. Do you think I’m going to waste any more of my precious youth waiting for you to screw up sufficient courage to make a bolt? Not I!…

I want you for my own, I want to go away with you. I must and will and damn the world and damn the consequences and anyone had better look out for themselves who dares to become an obstacle in my path.

Above all, Violet is consumed with violent resistance to the life of mediocrity and duplicity, to the concessions they are forced to make in their love in the face of what society deems acceptable. In letter from October of 1918, she channels that resistance with exquisite urgency:

O Mitya, give me great glaring vices, and great glaring virtues, but preserve us from the neat little neutral faintly pink or faintly mauve ambiguities that trot between…

Be wicked, be brave, be drunk, be reckless, be dissolute, be despotic, be an anarchist, be a religious fanatic, be a suffragette, be anything you like, but for pity’s sake be it to the top of your bent — Live — live fully, live passionately, live disastrously if necessary. Live the gamut of human experiences, build, destroy, build up again! Live, let’s live, you and I — let’s live as none ever lived before, let’s explore and investigate, let’s tread fearlessly where even the most intrepid have faltered and held back!

But by the following spring, the bold fantasy had grown stifled by reality. Violet reluctantly became engaged to Denys Trefusis, a soldier with the British Royal Horse Guards, who had been courting her for years. Although Denys had given his word to remain a “gentleman” — that is, he had promised the marriage would be chaste, so that Violet could remain faithful to Vita — the prospect of committing to someone other than her beloved was unbearable to Violet. By March of 1919, as she approaches her twenty-fifth birthday, Violet grows even more desperate over the disconnect between the intensity of her love for Vita and the options handed down to them by life in Edwardian England:

My beautiful, my lovely, I want you so… Cast aside the drab garments of respectability and convention, my beautiful Bird of Paradise, they become you not. Lead the life Nature intended you to lead.

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And yet Society, subjugating Nature, has different plans for them. On the last day of March in 1919, Violet attends “a ball of some sort” where her mother had publicly announced her reluctant engagement to Trefusis. That night, at 2 A.M., she sends Vita the most beautiful and harrowing letter of their entire correspondence, emblematic of the heartbreaking impossibility imposed on their love by the era’s punishing conventions and perhaps the most moving case ever made for the heart of marriage equality:

I was congratulated by everyone I knew there. I could have screamed aloud. Mitya, I can’t face this existence… It is really wicked and horrible. I am losing every atom of self-respect I ever possessed. I hate myself. O Mitya, what haveyou done to me? O my darling, precious love, what is going to become of us?

I want you every second and every hour of the day, yet I am being slowly and inexorably tied to somebody else… Sometimes I am flooded by an agony of physical longing for you … a craving for your nearness and your touch. At other times I feel I should be quite content if I could only hear the sound of your voice. I try so hard to imagine your lips on mine. Never was there such a pitiful imagining…

Nothing and no one in the world could kill the love I have for you. I have surrendered my whole individuality, the very essence of my being to you. I have given you my body time after time to treat as you pleased, to tear in pieces if such had been your will. All the hoardings of my imagination I have laid bare to you. There isn’t a recess in my brain into which you haven’t penetrated. I have clung to you and caressed you and slept with you and I would like to tell the whole world I clamor for you… You are my lover and I am your mistress, and kingdoms and empires and governments have tottered and succumbed before now to that mighty combination — the most powerful in the world.

It is as heartbreaking as it is unsurprising that the two women never escaped the shackles of their era’s narrow possibilities. Violet went through with the marriage to Denys. At the height of their inevitable marriage troubles a few years later, he burned all of her letters, rendering those preserved in Violet to Vita: The Letters of Violet Trefusis to Vita Sackville-West a rare and bittersweet sacrality of a romance so beautifully full of expansive possibility yet so tragically stifled by the narrowness of a culture unwilling to see that all love is sacred.

Edith Windsor, patron saint of modern love, put it best.

The Power of Hobbies. Por Carolyn Gregoire

Artigo de Carolyn Gregoire publicado originalmente no site Daily Good (http://www.dailygood.org/story/782/the-power-of-hobbies-carolyn-gregoire/)

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Children naturally love to play and explore and use their imaginations — but as adults, we often get so sucked into work and the demands of daily life that hobbies and creative outlets completely fall by the wayside. When you ask the average working adult what their hobbies are, there’s a good chance they’ll say “none.” But in forgoing hobbies and personal creative projects, we may be doing ourselves a major disservice.

“Finding time for ourselves is key to our own sanity,” Joyce E. A. Russell writes in a “Career Coach” article in the Washington Post. “It can actually improve all the other aspects of our lives. Having a hobby may be even more important to people who lead very full and busy lives.”

Creative hobbies or side projects — whether it’s gardening, journaling, taking up a new instrument, or experimenting with French cooking — can help us to tap into a sense of play and boost our powers of creative thinking. And regardless of whether your day job is creatively fulfilling or not, a creative side hobby that’s fun but challenging can be beneficial in a number of ways.

Having an outside-work hobby you enjoy (and that also challenges you and keeps you feeling engaged) can relieve stress and give you a new way of thinking — and it’s a good reminder that work isn’t everything. Some of your best ideas for a new business plan may not come while you’re sitting in front of the computer with the cursor blinking, but instead when you’re in a completely different headspace while engaging in a fun creative activity.

A creative side project could one day even turn into your full-time job or a project that you share with others. Enterpreneur Gaurabh Mathure, an adjunct professor at the School of Visual Arts in New York City, turned a fun hobby into fulfilling work withthinksketch.com, a digital collection of his note-takings and journalings to share with others in creative industries.

“As we get sucked more and more into our day to day jobs and chores, it is highly important to find creative outlets that keep your creativity alive and kicking,” Mathure wrote in a Medium blog post. Mathure has also said that his creative side project helped him to restore a sense of wonder to his day job.

Here are five successful people who demonstrate the value of creative side projects.

Alan Rusbridger

Guardian Editor Alan Rusbridger At The Edinburgh International Book Festival

In his book, Play It Again: An Amateur Against The Impossible, Guardian Editor-in-Chief Alan Rusbridger discusses the tumultuous events that took place at the Guardian under his leadership. But more importantly, Rusbridger talks about his ritual of playing the piano for 20 minutes each morning in order to teach himself how to play one of the most difficult pieces out there: Chopin’s Ballade No. 1 in G minor. Despite the constant demands of his “never off-duty” job, Rusbridger still found time for what was truly important to him.

“I get up half an hour earlier,” Rusbridger wrote of his morning routine. “I fit in ten minutes of yoga listening to the Today programme –- not exactly meditative. Then breakfast and the papers with more Today programme all at the same time. Then I slip upstairs to the sitting room to play before driving into work.”

Joni Mitchell

Joni Mitchell, Canadian Musician, Singer Songwriter, And Painter

 

Singer-songwriter Joni Mitchell wasn’t only musically and lyrically talented; she also enjoyed painting as a side project. In fact, her visual art was so important to her that it’s hardly accurate to call it a hobby. Mitchell painted for years, and is well-known for her Van Gogh-inspired self-portraits, one of which appeared on the cover of her album Turbulent Indigo.

After Mitchell stopped touring, she began devoting more time to her painting. And as she explained to an audience while on tour before performing her hit song “The Circle Game,” visual and performing arts are completely different mediums — and becoming adept at one may have strengthened and given her new perspective on the other.

“There’s one thing that’s always been a difference between the performing arts, and being a painter,” said Mitchell. “A painter does a painting, and he paints it, and that’s it, you know. He has the joy of creating it, it hangs on a wall, and somebody buys it, and maybe somebody buys it again, or maybe nobody buys it and it sits up in a loft somewhere until he dies. But he never… nobody ever said to Van Gogh, ‘Paint a Starry Nightagain, man!’ You know? He painted it and that was it.”

Steve Jobs.

Steve Jobs

During his college years, Steve Jobs picked up an unusual hobby that inspired much of his later success:Calligraphy. Jobs studied the ancient art of penmanship with a former Trappist monk Robert Palladino.

“Throughout the campus every poster, every label on every drawer, was beautifully hand calligraphed,” Jobs recalled of Reed College during his 2005 Stanford commencement speech. “I learned about serif and sans serif typefaces, about varying the amount of space between different letter combinations, about what makes great typography great. It was beautiful, historical, artistically subtle in a way that science can’t capture.”

A couple years later, when Jobs was working on computers out of his parents’ garage, he returned to Reed to consult with Palladino about Greek letters, according to the Hollywood Reporter.

Phil Libin

Like Rusbridger, Evernote CEO Phil Libin makes time in his day for music. Libin spends an hour each day playing his acoustic grand piano and teaching himself music theory and new songs, and he says that the hobby has helped to expand his thinking.

“When you learn a new skill, you learn new patterns,” Libin wrote in Inc. “And then you start seeing these patterns interwoven into the familiar world. The impenetrable becomes less so. Things you always knew, you now know better.”

Dave Eggers.

BOOKS

Writer and novelist Dave Eggers took a foray into the business world with a stint and book and magazine publishing. Eggers founded McSweeney’s, a San Francisco-based independent publishing company, a quarterly literary review of new writing by the same name, and the monthly magazine The Believer.

Eggers has been working on McSweeney’s literary review (which he’s referred to as a sort of “land of misfit writings”) since the late ’90s, before he wrote his mega-bestseller A Heartbreaking Work Of Staggering Genius, and in the years since, McSweeney’s has become an important name in independent publishing. Though the project isn’t a money-making one for Eggers, it’s brought him a great deal of satisfaction and personal fulfillment throughout his career.

“I think our scope has become more and more expansive every year, from being a more experimental journal to one that embraces any great writing,” Eggers told NPR last year. “We’re an operation that has never made a profit, but at least we exist, and to exist as a literary journal for 15 years, we feel incredibly lucky.”

Ritalina: o genocídio do futuro. Por Roberto Amado

Texto de Roberto Amado publicado originalmente no site Poucas Palavras (http://robertoamado.com.br/ritalina-o-genocidio-do-futuro/)

Esta droga legal que transforma as pessoas numa espécie de zumbi virou febre mundial e as autoridades estão preocupadas com isso.

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É uma situação comum. A criança dá trabalho, questiona muito, viaja nas suas fantasias, se desliga da realidade. Os pais se incomodam e levam ao médico, um psiquiatra talvez.  Ele não hesita: o diagnóstico é déficit de atenção (ou Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH) e indica Ritalina para a criança.

O medicamento é uma bomba. Da família das anfetaminas, a Ritalina, ou metilfenidato, tem o mesmo mecanismo de qualquer estimulante, inclusive a cocaína, aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A criança “sossega”: para de viajar, de questionar e tem o comportamento zombie like, como a própria medicina define. Ou seja, vira zumbi — um robozinho sem emoções. É um alívio para os pais, claro, e também para os médicos. Por esse motivo a droga tem sido indicada indiscriminadamente nos consultórios da vida. A ponto de o Brasil ser o segundo país que mais consome Ritalina no mundo, só perdendo para os EUA.

A situação é tão grave que inspirou a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a fazer uma declaração bombástica: “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro”, disse ela em entrevista ao  Portal Unicamp. “Quem estão sendo medicadas são as crianças questionadoras, que não se submetem facilmente às regras, e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que viajam. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de mil  anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível”, diz ela.

O fato, no entanto, é que o uso da Ritalina reflete muito mais um problema cultural e social do que médico. A vida contemporânea, que envolve pais e mães num turbilhão de exigências profissionais, sociais e financeiras, não deixa espaço para a livre manifestação das crianças. Elas viram um problema até que cresçam. É preciso colocá-las na escola logo no primeiro ano de vida, preencher seus horários com “atividades”, diminuir ao máximo o tempo ocioso, e compensar de alguma forma a lacuna provocada pela ausência de espaços sociais e públicos.

Já não há mais a rua para a criança conviver e exercer sua criancisse. E se nada disso funcionar, a solução é enfiar Ritalina goela abaixo. “Isso não quer dizer que a família seja culpada. É preciso orientá-la a lidar com essa criança. Fala-se muito que, se a criança não for tratada, vai se tornar uma dependente química ou delinquente. Nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação de que funciona. Ao contrário: não funciona. E o que está acontecendo é que o diagnóstico de TDAH está sendo feito em uma porcentagem muito grande de crianças, de forma indiscriminada”, diz a médica.

Mas os problemas não param por aí. A Ritalina foi retirada do mercado recentemente, num movimento de especulação comum, normalmente atribuído ao interesse por aumentar o preço da medicação. E como é uma droga química que provoca dependência, as consequências foram dramáticas. “As famílias ficaram muito preocupadas e entraram em pânico, com medo de que os filhos ficassem sem esse fornecimento”, diz a médica. “Se a criança já desenvolveu dependência química, ela pode enfrentar a crise de abstinência. Também pode apresentar surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações e correm o risco de cometer até o suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA)”.

Enquanto isso, a Ritalina também entra no mercado dos jovens e das baladas. A medicação inibe o apetite e, portanto, promove emagrecimento. Além disso, oferece o efeito “estou podendo” — ou seja, dá a sensação de raciocínio rápido, capacidade de fazer várias atividades ao mesmo tempo, muito animação e estímulo sexual — ou, pelo menos, a impressão disso. “Não há ressaca ou qualquer efeito no dia seguinte e nem é preciso beber para ficar loucaça”, diz uma usuária da droga nas suas incursões noturnas às baladas de São Paulo. “Eu tomo logo umas duas e saio causando, beijando todo mundo, dançando o tempo todo, curtindo mesmo”, diz ela.