Em que ponto da cidade sua memória é mais feliz? Por Rafael Nardini

Artigo de Rafael Nardini publicado originalmente no site Papo de Homem

Para os padrões sedentários da esmagadora maioria dos amigos mais próximos, até que tenho me virado bem.

Não fechei a conta — até porque faço questão de variar o traçado –, mas caminho pelo menos 5 km por dia. Não sou o único por aqui, mas nada comparável a Paul Salopek, 51, jornalista com dois prêmios Pulitzer que decidiu refazer a trilha que teria sido realizada pela espécie humana em sua trajetória pela Terra.

Um repórter, sete anos, 33.796km, 60 mil anos de história da humanidade e 30 milhões de passos que serão dados. Sai de Etiópia e só para na Patagônia

Um repórter, sete anos, 33.796km, 60 mil anos de história da humanidade e 30 milhões de passos que serão dados. Sai de Etiópia e só para na Patagônia

 

Dado o primeiro passo em fevereiro, na região de Herto Bouri, na Etiópia, o americano não vai parar até chegar à Patagônia, o que está previsto para se concretizar somente em 2020. No blog de viagem Out Of Eden Walk, mantido na National Geographic, Salopek conta ser comum encontrar lobos pendurados em árvores por pastores da região de Surum, na Arábia Saudita.

Não é por uma razão grandiosa para a humanidade que gasto a sola dos calçados. Acontece quecaminhar é um pedaço de liberdade bem particular para quem, como eu, não guia bicicleta nem motos e decidiu abandonar de vez o automóvel.

Uma parada rápida para pensar me sugere que andar representa não apenas nossa evolução como espécie, mas a busca pelo desconhecido, pela transitoriedade, pela expansão de horizontes e pela sobrevivência, instintos que teriam feito o Homo Sapiens percorrer os cinco continentes após surgir — como apontam as evidências científicas — na “Mãe África”.

Para se equilibrar sobre as próprias pernas é necessário, primeiramente, engatinhar, coisa que as espécies que antecederam personagens como você, eu, Paul Salopek, Gisele Bündchen, a caixa do supermercado ou qualquer outro não conseguiram eliminar de uma vez por todas.

O fato de as distâncias que podem ser percorridas por um ser humano terem se alargado tanto com o emprego da tecnologia nos privou do doce e livre caminhar bípede. Acrescente aí a necessidade de atravessar megalópoles inteiras para trabalhar, estudar ou ter acesso às mínimas oportunidades ao lazer.

Quem tem a possibilidade, tem tentado sair da caixa. Os passeios socráticos na Grécia Antiga, os reflexivos (a Nietzsche é atribuída a frase “todos os grandes pensamentos são concebidos ao caminhar”) ou exploratórios pela cidade têm ganhado seguidores.

Por experiência, há uma cidade inteira entre as ruas Professor João Arruda, em Perdizes, e Ministro Ferreira Alves, na Pompeia. Não há serviço que não se encontre (descobri uma costureira ótima, ainda que não seja lá tão em conta assim), não há culinária sem representação.

Se o Nietzsche soubesse do amor que os hipsters têm por ele…

Se o Nietzsche soubesse do amor que os hipsters têm por ele…

Há muitos outros, além do intrépido Salopek, que vivem profissionalmente dos passos da existência solitária:

“Pedestres são ‘praticantes da cidade ‘, pois a cidade é feita para ser percorrida. A cidade é uma linguagem, um repositório de possibilidades, e caminhar é o ato de falar essa língua, de escolher entre essas possibilidades.”

Rebecca Solnit, em seu livro Wanderlust: The History Of Walking).

Mais a fundo vai o fotógrafo, antropólogo e arqueólogo Bradley Garrett, que passou os últimos cinco anos explorando esgotos, bunkers, túneis de metrô e arranha-céus. De Detroit ao Cambódia, Garrett registrou um pouco de tudo em seu livro Explore Everything.

Para que a mínima exploração urbana funcione (e ela já será útil quando você perceber que não há mais necessidade de entrar nas masmorras modernas que foram nomeadas shoppings centers), é necessário encarar sua cidade como se fosse um turista voraz. Lembra aquele sorriso que surgiu ao descobrir um boteco que guardava semelhança com seu bairro enquanto perambulava por Montevidéu?

É assim que se faz.

A coisa é manter a cabeça erguida e mente pronta para recolher informações. Analisar os prédios, as marquises, as árvores, as calçadas, as padarias, as bancas, os velhinhos, os operários e os motoristas — seres deixaram de engatinhar, no entanto, ainda não ultrapassaram o uso de artifícios primários como a buzina. Parece fácil, mas para quem viveu boa parte da última década com os olhos grudados nos livros para não enlouquecer nos longos deslocamentos ou com o aperto e os atrasos do transporte público, a reeducação passa por deixar de flanar pelas calçadas (abraço,Walter Benjamin) e começar a vivê-las plenamente..

É preciso valorizar o cansaço de cada subida que sua mente ainda não gravou e comemorar internamente a gloriosa decida inesperada. Você há de perceber que é desafiador desprogramar a cabeça. Mesmo com certo esforço, parece que as pernas esboçam trajetos padrões.

Já me peguei inúmeras vezes me enganando. De toda maneira, como tudo na vida (não custa lembrar), no fundo, as cidades são suas experiências pessoais, únicas, dentro de seus próprios parâmetros. Não há chances de um morador de Paraisópolis enxergar essa gigante e destrambelhada chamada São Paulo com os mesmos olhos de um funcionário-padrão-bem-remunerado-que-recebe-décimo-quinto-salário-no-banco-em-que-trabalha.

Isso posto, chego ao projeto projeto colaborativo Map Your Memories, iniciativa da então estudante de Harvard Becky Cooper.

Da experiência iniciada em 2009 surgiu o livro Mapping Manhattan – A Love (And Sometimes Hate) Story in Maps by 75 New Yorkers, compilado em que os moradores da cidade completam desenhos cartográficos com suas memórias afetivas.

E se alguém resolvesse copiar a ideia e eu fosse incumbido de fazer a minha versão, desenharia um par de sapatos num macaco caminhando em posição ereta no meio de carros, ônibus e um sem número de personas estranhas e amigáveis, entretanto.

Para mostrar que caminhar é preciso. E se faz passo a passo.

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