Segue Seu Destino. Poema de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa

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Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra De árvores alheias.

A realidade Sempre é mais ou menos Do que nos queremos.

Só nós somos sempre Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode Dizer-te.

A resposta Está além dos deuses.

Mas serenamente Imita o Olimpo No teu coração.

Os deuses são deuses Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in “Odes” Heterônimo de Fernando Pessoa

 

Um filme que eu recomendo: A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino

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Na sexta-feira à noite eu fui assistir um filme que estava na minha lista há bastante tempo: A Grande Beleza, do Paolo Sorrentino. Eu vi ainda em 2013 o filme anterior desse diretor. Aqui é o meu lugar, seu primeiro filme americano que mostra um Sean Penn fantástico como um astro pop. parecido cm o Robert Smith, do The Cure, que lá pelas tantas sai da sua toca em busca de seu passado e de seu pai. Gostei muito. Quando esse A Grande Beleza Saiu, a maioria das críticas foi muito boa. Por outro lado, escutei gente dizendo que saiu antes do filme terminar, por considera-lo incompreensível. Eu tinha que ver.

E como me disse minha amiga Silvinha… é filme para ver mais de uma vez. Tem muito significado ali, mas é difícil apreender tudo de uma vez só. É um convite muito forte à reflexão. Por outro lado, as interpretações são espetaculares, principalmente do protagonista, Jep Gambardella, vivido brilhantemente por Toni Servillo. Mas todo o cast italiano é muito bom. A fotografia põe em evidencia a beleza de Roma – o que não é dificil – mas o faz de forma onirica muitas vezes, o que é um grande mérito.

Eu recomendo. Certamente vou ver o filme mais algumas vezes. Muito provavelmente vou comprar o blu-ray. Mas é filme de reflexão, já aviso.

Li várias outras críticas depois, para tirar outras nuances do filme, e a de que mais gostei foi do José Bruno Silva, do Blog Sublime Irrealidade (http://sublimeirrealidade.blogspot.com.br/2014/01/a-grande-beleza.html). Deixo abaixo, para instigar a curiosidade.

A Grande Beleza (La Grande Bellezza) – 2013. Dirigido por Paolo Sorrentino. Escrito por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello. Direção de Fotografia de Luca Bigazzi. Música Original de Lele Marchitelli. Produzido por Francesca Cima e Nicola Giuliano. Indigo Film, Medusa Film, Babe Film, Pathé e France 2 Cinéma / Itália | França.

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Em A Doce Vida (1960), clássico absoluto de Federico Fellini, acompanhamos Marcello Rubini (vivido por Marcello Mastroianni), um jornalista amargurado e apático que transita por diversos meios sociais sem fazer ou ao menos se sentir parte de nenhum deles. Por meio de um roteiro quase episódico, o filme retrata a fluidez da vida e a solução encontrada pelo personagem para lidar com ela, ele busca na velocidade dos acontecimentos uma forma de preencher o vazio de sua existência, isso, já naquela época, remetia à uma das características mais marcantes de nosso tempo, que seria tão bem definido pelo sociólogo Zigmunt Bauman como a ‘modernidade líquida’. A Grande Beleza (2013), o novo longa de Paolo Sorrentino, além de ser similar em diversos aspectos, repete o mesmo feito realizado pelo filme de Fellini, ele, através de uma trama igualmente episódica, consegue captar a essência do mundo contemporâneo, se tornando assim um recorde bizarro e ao mesmo tempo realista da vida na alta sociedade italiana.
No centro da trama de A Grande Beleza está o jornalista Jep Gambardella (vivido por Toni Servillo, em uma excelente interpretação), um bon vivant convicto que aprecia ao máximo os prazeres que seu dinheiro pode comprar. Tal como Marcello Rubini em A Doce Vida, ele circula por meios sociais distintos, onde aparenta buscar algo que nunca consegue encontrar… Para que se posa compreender o drama de Jep e a reflexão proposta pelo filme basta que se faça uma breve análise de duas passagens presentes no primeiro ato. Na primeira delas, um grupo de turista orientais passeiam por Roma, um deles, embriagado pela beleza do lugar onde se encontram e pela música que toca, quase hipnótica, acaba se distanciando um pouco dos demais. Ele tira várias fotos na esperança de captar e eternizar a beleza do momento, que ele sabe que é efêmero, percebemos em seu rosto a satisfação de estar em contato com algo maior, quase sublime. Em um sutil movimento, a câmera gira em torno dele, ele enxuga o suor da testa com uma das mãos e desfalece, vítima provavelmente de um ataque cardíaco.
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A segunda passagem retrata uma festa repleta de excessos e extravagâncias, é o aniversário de 65 anos Jep Gambardella que está sendo comemorado. A experiência fugaz e hedonista proporcionada pela música eletrônica quase ensurdecedora, pelas performances bizarras, pelo sexo e pelas drogas, não consegue aplacar a sensação de vazio que Jep sente. Ainda nesta passagem, há um momento em que ele literalmente se destaca da multidão e do ambiente diegético e se volta para a câmera para explicar que sempre acreditou que estava destinado à sensibilidade – uma sensação que, diga-se de passagem, é incapaz de ser saciada pelos exageros que seu dinheiro podia comprar. Ao compararmos as duas passagens, percebemos uma questão interessante, da qual resulta uma lógica que se manterá durante o restando do filme: A beleza real não está na extravagância, mas na simplicidade, ela não pode ser forjada, pois precisa ser natural, espontânea e antes de tudo autêntica, tal como fora no momento singular vivido pelo personagem da primeira sequência.
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Nem o oriental, que sucumbe ao se sentir preenchido pela beleza, nem tão pouco Jep conseguem realizar aquilo que vejo como o principal objetivo deles na trama: perpetual os momentos sublimes. O drama do protagonista é ainda mais complexo, ele se perde ao tentar eternizar uma beleza que sequer é real e ele tem plena ciência disso. No decorrer da trama, percebe-se que a aversão que ele tem à realidade está diretamente relacionada ao seu medo de encarar o vazio de sua vida e aos inúmeros fantasmas do passado que ainda lhe atormentam.
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Jep ainda colhe os frutos do lançamento bem sucedido de seu único livro, publicado já há mais de quarenta anos, mas desde então ele nunca conseguiu escrever outra obra. O status que o sucesso lhe proporcionou e o dinheiro que conseguiu acumular lhe garantiu, durante todo este tempo, acesso irrestrito aos meios frequentados pela nata da sociedade de Roma. Porém, ao completar 65 anos ele vê tomado por uma reflexão acerca daquilo que sua vida se tornou, é então que ele decide buscar inspiração para um novo projeto literário. A reflexão lhe transporta para a sua juventude, uma época na qual ele viveu aquele que talvez tenha sido o seu único amor verdadeiro. Entorpecido palas reminiscências, ele tenta buscar no mundo à sua volta, algo que possa ter um significado tão valioso quanto o deste amor, que de repente volta a mexer com os seus sentimentos de uma forma tão intensa.
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Em sua procura por inspiração, Jep se depara com o que ele mais temia: o vazio. A percepção de que tudo em torno de si é superficial e falso se torna ainda mais incômoda à medida em que sua sensibilidade é aguçada pelos fatos do passado que sua mente trás à tona. Ao acompanhar a busca do personagem por respostas e por um significado maior, que possa lhe dar inspiração e um sentido para a sua própria vida, o filme acaba abordando também a incapacidade da arte, da ideologia e da religião de proporcionarem para o indivíduo soluções definitivas para boa parte de suas questões. Ao procurar por respostas, o que Jep encontra são apenas novas perguntas. As pessoas à sua volta, no entanto, se contentam com as meias verdades, com aquilo que se tornou convenção, com a superficialidade e com a falta de significado da vida. Nota-se que este contentamento e o apego às mentiras, que elas contam para si mesmas, foram as formas que estas pessoas encontraram para lidar com o vazio…
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A artista performática que se joga contra um muro; a menina pintora que, em um acesso de raiva, preenche uma tela atirando latas de tinta contra ela; o dramaturgo que escreve para impressionar a mulher que ama; o rapaz que fotografou a si mesmo todos os dias durante 15 anos e organizou, ele próprio, uma exposição para mostrar o resultado do trabalho; a stripper que, apesar da idade já avançada, continua a trabalhar para não perder as regalias que a atividade lhe proporciona; o mágico não se preocupa em quebrar a magia de seu espetáculo (“é apenas um truque’, ele diz); a mulher que se gaba da relevância de sua obra e de sua militância política, sem que elas sejam de fato relevantes; a freira anciã, tratada como santa, que também se encontra tão perdida quanto todos os outros em relação às questões inerentes à vida… todos estes personagens e cada um dos outros que surgem na tela durante as duas horas e vinte minutos de filme trazem junto consigo a representação de algo maior, em suas composições caricatas (outro aspecto que remete a Fellini) é possível identificar uma crítica aos valores e aos costumes adotados pela sociedade retratada.
O que difere Jep Gambardella de Marcello Rubini é apenas a disposição que o primeiro tem de compreender o mundo no qual está inserido, enquanto o outro apenas transitava pelos meios que fraquentava sem intervir neles e nem ao menos questioná-los. Creio que não é forçação de barra pensar que o que A Grande Beleza proporciona é na verdade um choque de gerações, que se dá entre a geração atual e aquela à qual o protagonista pertence (curiosamente, a mesma retratada em A Doce Vida de Fellini). Não é um choque tão grande, afinal de contas tais gerações são similares em diversos aspectos, mas ainda assim é notável o atrito entre as duas, principalmente nas forma de lidar, pensar e questionar a sensação de vazio, que tem se tornado cada vez maior e mais intensa… O interessante é perceber que a beleza da qual o título do filme fala está presente durante toda a sua duração, porém poucos são os personagens que a percebem.
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A fotografia dirigida por Luca Bigazzi transforma Roma em um deleite à parte no filme, a cidade aparenta nunca ter estado tão bela. A escolha das locações e dos enquadramentos captam uma aura que torna cada fotograma uma obra de arte individual, que traz consigo uma carga de significados muito mais ampla do que aquela observada nas ‘performances artísticas’ que o filme retrata em seu desenvolvimento. A leveza com que a câmera caminha pelos cenários, como se já esperasse captar deles algo que não está sendo verbalizado, remete mais uma vez ao cinema de Fellini, tal sutileza coloca o filme em um ritmo relativamente lento (por favor, não confundam lentidão com algo depreciativo) abre margem para inúmeras reflexões sobre a arte, sobre as coisas às quais apegamos para tentar aplacar o vazio e sobre  vida como um todo. Não tenho dúvidas de que A Grande Beleza seja um filme pretensioso, mas ele cumpre com relativa facilidade tudo aquilo a que se propõe, não deixando nada a desejar. Volto a dizer, a cortina dos clássicos ainda se encontra aberta!

Kevin Johansen. No voy a ser yo. Letra e musica

El que se quede sin dar el paso, no voy a ser yo
Quien se canse de tus abrazos, no voy a ser yo
No voy a ser yo, no voy a ser yo
No voy a ser yo, no voy a ser yo

Tengo tiempo y tengo paciencia, y sobre todo
Te quiero dentro de mi existencia de cualquier modo,
Y aunque falte tal vez bastante, no voy a ser yo
El que se canse antes, no voy a ser yo
No voy a ser yo, no voy a ser yo
No voy a ser yo, no voy a ser yo

Hay gente que no debería enamorarse
Algunos no deberíamos dar el sí
Yo no veo otra salida, no quiero pasar la vida
Sin que la vida pase a través de mí…

Y aunque me pierda completamente, no voy a ser yo
Quien se esconda de lo que siente, no voy a ser yo
No voy a pisar el freno, no voy a ser yo
El que se ande con más o menos, no voy a ser yo

No voy a ser yo, no voy a ser yo
No voy a ser yo, no voy a ser yo

Hay gente que no debería involucrarse
Con cosas que luego no pueden manejar
Yo no veo otra salida, no quiero pasar la vida,
Pisando una piedra y volviéndola a pisar…

Hay gente que no debería enamorarse
Algunos no deberíamos dar el sí (quiero)
Yo no veo otra salida, no quiero pasar la vida
Sin que la vida pase a través de mí…

Si querés un Principe Azulado, no voy a ser yo,
Si querés un Bangundangunladu, no voy a ser yo
Y aunque me pierda completamente, no voy a ser yo
Quien se esconda de lo que siente, no voy a ser yo

no voy a ser yo
no voy a ser yo
no voy a ser yo
no voy a ser yo

“The Cultivation of Christmas Trees”, poema de T.S. Eliot, em um raro panfleto da década de 50, ricamente ilustrado

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Eu li há pouco um artigo no site Brainpickings (www.brainpickings.org) que me deu paz de espírito, no fogo cruzado que vi nas redes sociais nos últimos dias, entre pessoas fazendo os tradicionais votos natalinos de bem estar e felicidade, e seus opositores expressando uma visão menos espiritualizada e mais cínica do mundo – adjetivos estes que uso em seus sentido original, sem nenhum juízo de valor – e taxando a todos os outros, pelo menos, de hipócritas.

Conta o artigo que em 1927, um editor inglês teve uma ideia original: convidou escritores e ilustradores famosos a contribuir com versos e desenhos inspirados pelo Natal para m série de panfletos de poesia, que seriam enviados para clientes no lugar dos tradicionais cartões de Natal e vendidos para o público em geral, pelo valor de 5 cents de dólar. O projeto foi chamado de Série Ariel. Dentre os apoiadores mais notáveis estava o famoso poeta e amante dos gatos T.S. Eliot, que escreveu seis poemas para o projeto, desde seu início, em 1927, até 1954, quando já estava quase com 70 anos.

O artigo do Brainpickings fala da localização de um dos originais da edição Norte-Americana do último poema de Eliot para a Série Ariel: The Cultivation of Christmas Trees. Define o panfleto como “a long out of print gem”. Realmente, este derradeiro poema de Eliot conta com ilustrações de Enrico Arno, que havia fugido da Alemanha nazista devido a sua ascendência judia e depois estabeleceu-se nos Estados Unidos como um aclamado ilustrador.

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Os versos de Eliot lidam com a religiosidade da festa, mas não deixam de abordar uma preocupação muito secular: nossa luta ferrenha para não perdermos nossa capacidade de nos maravilharmos diante da vida, a mesma faculdade que abastece tanto a ciência, quanto a espiritualidade.

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There are several attitudes towards Christmas,
Some of which we may disregard:
The social, the torpid, the patently commercial,
The rowdy (the pubs being open till midnight),
And the childish — which is not that of the child
For whom the candle is a star, and the gilded angel
Spreading its wings at the summit of the tree
Is not only a decoration, but an angel.

The child wonders at the Christmas Tree:
Let him continue in the spirit of wonder
At the Feast as an event not accepted as a pretext;
So that the glittering rapture, the amazement
Of the first-remembered Christmas Tree,
So that the surprises, delight in new possessions
(Each one with its peculiar and exciting smell),
The expectation of the goose or turkey
And the expected awe on its appearance,

So that the reverence and the gaiety
May not be forgotten in later experience,
In the bored habituation, the fatigue, the tedium,
The awareness of death, the consciousness of failure,
Or in the piety of the convert
Which may be tainted with a self-conceit
Displeasing to God and disrespectful to children
(And here I remember also with gratitude
St. Lucy, her carol, and her crown of fire):

So that before the end, the eightieth Christmas
(By “eightieth” meaning whichever is last)
The accumulated memories of annual emotion
May be concentrated into a great joy
Which shall be also a great fear, as on the occasion
When fear came upon every soul:
Because the beginning shall remind us of the end
And the first coming of the second coming.

 

O artigo original você acha nesse link: http://www.brainpickings.org/index.php/2013/12/24/t-s-eliots-the-cultivation-of-christmas-trees/

Como ser eterno. Por Rodrigo Normando

Artigo de Rodrigo Normando publicado originalmente no site Obvious (http://lounge.obviousmag.org/it_is_alive/2013/11/como-ser-eterno.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+OBVIOUS+%28obvious+magazine%29)

No mundo das artes muito se produz; muito se perde; outro tanto não se entende. Há, no entanto, aquelas obras – nem todas primas – que se enraízam em uma terra conceitual, que florescem, amadurecem e morrem, e depois da morte são revistas, têm suas páginas revisitadas, seus traços imitados. Torna-se assim eterna. Bill Waterson é pai de uma obra eterna.

Em 1985 um menino em uma tirinha apareceu, de forma irônica, ele não fora concebido para ser o personagem principal, posto que era, apenas, o irmão mais novo do protagonista. Todavia, algo peculiar nessa personagem chamou os olhares dos syndicates que Bill Waterson – o pai da personagem na vida real – havia enviado. Waterson então dedicou-se integralmente a dar vida ao seu mais novo filho: Calvin e de brinde Haroldo.

Calvin e Haroldo, por Bill Waterson - Aqui Haroldo, o tigre, nos é apresentado como Calvin o vê.

Calvin e Haroldo, por Bill Waterson – Aqui Haroldo, o tigre, nos é apresentado como Calvin o vê.

Calvin é um menino que terá eternamente seis anos de idade e um tigre de pelúcia. Uma personagem cuja imaginação dá vida ao seu bichinho de pelúcia e nos incendeia com percepções aguçadas a respeito da nossa sociedade enquanto um algo, que pensamos ser, estável. Embora ambas as personagens, Calvin e Haroldo, sejam um só, que é o menino em si, há diferenças absurdas entre as personalidades que, ora se completam, ora divergem.

Tirinha #615 de 26 de Julho de 1987.

Tirinha #615 de 26 de Julho de 1987.

Talvez Calvin viva em um mundo que nunca será real, embora tenha existido e continue existindo, um mundo que se chama ‘infância’ e no qual Calvin estará condicionado para sempre por Waterson. Contradizendo o estilo de trabalho do mundo moderno, Waterson nunca quis vender o Calvin, digo; embora recebesse pelas tirinhas, ele jamais aceitaria que a imagem de Calvin e Haroldo virasse cartoon, camisetas, canecas, filmes, séries, justamente por algo que Goethe, certa vez, parafraseou Aristóteles dizendo – A arte não deve ser barganhada.

Calvin e Harold em 'O Episódio Final' - por um fã anônimo. Aqui parece que Calvin foi diagnosticado como hiperativo e, agora, toma remédios para ser 'normal'.

Calvin e Harold em ‘O Episódio Final’ – por um fã anônimo. Aqui parece que Calvin foi diagnosticado como hiperativo e, agora, toma remédios para ser ‘normal’.

Como resposta à tira anterior outro fã, igualmente anônimo, produziu a tira acima.

Como resposta à tira anterior outro fã, igualmente anônimo, produziu a tira acima.

Tira produzida por Donald Trump, empresário e apresentador norte americano.

Tira produzida por Donald Trump, empresário e apresentador norte americano.

 

 

Eis o que Bill Waterson, recentemente, disse a um jornalista sobre adaptar Calvin e Haroldo para outras mídias:

“A sofisticação visual da Pixar é de tirar o folego, mas eu não tenho nenhum interesse em fazer uma animação Calvin e Hobbes. Se você já comparou um filme com um livro, você percebe que o livro é mais íntimo. É inevitável, porque os diferentes meios de comunicação têm diferentes pontos fortes e necessidades. Como uma história em quadrinhos, Calvin e Haroldo funciona exatamente do jeito que eu pretendia que funcionasse. Não há nenhuma vantagem para mim em adaptá-lo.”

No fim das contas, fechar o livro de Calvin e Haroldo, que pode ter sido uma decisão difícil, não fez nada senão imortalizar uma tirinha como nunca se fez antes. O lado negativo da história é que dentro de algumas décadas os imortais de Bill Waterson entrarão para o domínio público e, sendo de qualquer um, há fortes dúvidas quanto o respeito do próximo pela história e seus motivos.

Última tirinha de Calvin e Haroldo, publicada em 31 de Dezembro de 1995. Parece que o fim é, em si, um recomeço.

Última tirinha de Calvin e Haroldo, publicada em 31 de Dezembro de 1995. Parece que o fim é, em si, um recomeço.

 

Por que “Gravidade” é o filme do ano. Por Kiko Nogueira

Artigo de Kiko Nogueira, publicado originalmente no site El Hombre (http://www.elhombre.com.br/por-que-gravidade-e-o-filme-ano/)

Mais do que uma ficção científica espetacular e vazia, ele se resume a uma crônica sobre alguém que precisa escolher entre seguir adiante ou jogar a toalha.

O longa é Hollywood em sua melhor forma

O longa é Hollywood em sua melhor forma

Apesar dos efeitos espetaculares e da sensação de ter invadido o Google Earth, “Gravidade” é menos ficção científica e mais uma história sobre a luta para sobreviver em condições adversas. Está mais para “127 Horas” ou “Na Natureza Selvagem” do que para “Star Wars”, “2001” ou a porcaria de “Elysium”.

É o filme do ano. É Hollywood em sua melhor forma: entretenimento, uma dose de inteligência, espetáculo de massa, som, fúria e muito dinheiro. Faz bom uso do 3D, também, que desta vez não serve para acobertar lixo. É o filme do ano.

Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalski (George Clooney) são os únicos sobreviventes de um desastre numa estação espacial. Têm pouco tempo e oxigênio para chegar até outra nave que consiga levá-los de volta à Terra.

Kowalski, uma espécie de Buzz Lightyear, torna-se o anjo da guarda de Ryan, uma cientista que, ficamos sabendo, perdeu a filha de 4 anos num balanço. Ela terá forças para seguir adiante ou vai desistir para, digamos, encontrar a menina?

O diretor Alfonso Cuarón, sabiamente, se concentrou no drama e no suspense ao invés de se apegar a papo furado sobre foguetes ou alienígenas. Os mais chatos encontrarão imprecisões e inverosimilhanças, mas, ei, isso é cinema (aliás, fique ciente de que, se você estiver em órbita, pode usar o extintor de incêndio como jato propulsor. Não tem erro).

Os dois astronautas estão sozinhos no universo, como você. Assim que a comunicação com a Terra é interrompida, Kowalski manda Ryan marcar no cronômetro 90 minutos. É o tempo que os destroços que detonaram sua nave vão levar para fazer a órbita completa e voltar em sua direção. É também quanto dura “Gravidade”.

Uma hora e meia passam voando. Tenso. Além de não ter colocado monstros na tela, há poucas referências a outros filmes de espaço. Ed Harris faz a voz do comando na Terra (o inevitável Houston), o mesmo Harris que estava em “Apollo 13”. Ryan é uma heroína como a Ripley de “Aliens”. Mas nada muito além disso.

Cuarón admitiu ter se inspirado em “Acossado”, o primeiro filme de Spielberg, antes de ele virar o Papai Noel, uma maravilha sobre um homem perseguido por um caminhão, e no sensacional “Corrida Contra o Destino” (cujo protagonista se chamava Kowalski, como o personagem de Clooney).

Com toda a espuma tecnológica que o envolve, “Gravidade” se resume a uma crônica sobre alguém que precisa escolher entre seguir adiante ou jogar a toalha. É a performance da vida de Sandra Bullock. Talvez seja o filme da vida de muita gente, e não apenas durante aqueles 90 minutos.

 

Nova Série da HBO. True Detectives, com Matthew McConaughey e Woody Harrelson

No começo de setembro eu vi o primeiro trailer da nova série da HBO, True Detectives. Um dos diálogos diz que “O mundo precisa de homens maus.” E eu preciso assinar a HBO. O canal tem consistentemente desenvolvido projetos de televisão com pedigree cinematográfico como essa série, programada para estrear nos EUA em janeiro, estrelada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson como um par de detetives em busca por um serial killer na Louisiana por mais de 17 anos.

Mês passado, um novo trailer foi liberado e fiquei mais interessado ainda. O vídeo, abaixo, conta um pouco dalinha de tempo do drama, como se vê pelo avanço da idade dos protagonistas.

A legenda do trailer é Slow Burn… E é adequada ao clima das imagens, com desolação e violência, sublinhada pela trilha sonora “28 Days Later.