Diga “eu te amo” para os seus amigos. Por Victor Lisboa

Artigo de Victor Lisboa publicado originalmente no site Papo de Homem (http://papodehomem.com.br/diga-eu-te-amo-para-os-seus-amigos/)

É coisa que não menciono com frequência, mas quase morri em um acidente quando era mais jovem. Foi próximo ao Natal, então sempre me lembro da história nessa época do ano.

Quando abri os olhos, deitado no asfalto, vi um trecho do céu emoldurado por um círculo de curiosos, enquanto um PM apavorado rogava que eu não me mexesse. Havia algo úmido atrás da minha cabeça, que presumi ser sangue. Senti que estava perdendo a consciência, e considerei a possibilidade de que tudo acabasse ali.

Foi quando lamentei que, se viesse a morrer, não voltaria a dizer “te amo” para minha mãe, meus irmãos e minha namorada. Porém, pouco antes de ficar inconsciente, um segundo pensamento surgiu, esse bem mais difícil. Percebi que partiria sem nunca ter deixado claro o quanto amava aqueles que foram os meus grandes companheiros durante minha travessia nesta vida: os meus amigos.

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Porque, como sabemos, nós amamos nossos amigos.

Mas tive sorte naquele Natal. Sobrevivi ao acidente sem um osso quebrado. Horas depois, eu já estava em casa, reafirmando a meus familiares e a minha namorada, uma vez mais, o meu imenso amor por eles.

Porém, nos dias seguintes, não transmiti aos meus amigos o quanto os amava. Fiquei intimidado pelo preconceito, constrangido diante da eventual incompreensão, incapaz de olhar nos olhos de um outro cara e, sem voz hesitante, dizer algo que realmente é natural, que é até fundamental sentirmos por nossas verdadeiras amizades.

Afinal, aos poucos, fui cedendo novamente à ilusão de que poderia adiar um tarefa importante, porque eu era “eterno”.

A verdade é que isso foi em uma época anterior às redes sociais surgirem na Internet. Hoje, qualquer um pode transmitir essa mensagem aos amigos com facilidade e sem constrangimentos. Afinal, não precisamos mais olhar nos olhos deles e tampouco falar com nossa própria voz o quanto sua amizade é uma de nossas maiores alegrias neste mundo. Basta publicar no Facebook que amamos as centenas, talvez os milhares de amigos que estão adicionados em nosso perfil, e daí é só aguardar todas as curtidas que virão.

Mas também podemos utilizar apenas 32 caracteres e escrever, no Twitter, algo como “Eu amo todos vocês, meus amigos!”, e esperar os retuítes de todos os que nos seguem. Os mais criativos podem até segurar cartazes em fotos publicadas no Instagram ou no Tumblr.

Agradeçamos às redes sociais. Graças a elas, teremos um arrependimento a menos quando formos dessa para uma melhor.

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Ou talvez não. E, nesse caso, o arrependimento pode ser ainda maior.

Porque utilizarmos as redes sociais desse modo talvez seja uma maneira de nos afastarmos ainda mais de nossos amigos. Afinal, um dos subterfúgios para não expressarmos um sentimento é expressá-lo pelos meios errados.

Além disso, ninguém tem cinco mil amigos, sequer cinquenta. Temos cinco ou quatro amigos do peito, nossos verdadeiros irmãos camaradas. E eles estão lá, perdidos, misturados com outras centenas ou milhares de pessoas adicionadas em nossas redes sociais, como se as fibras de nosso coração estivessem diluídas em um oceano virtual de contatos, a grande maioria composta de pessoa que conhecemos apenas superficialmente.

Cutuca daí que eu compartilho daqui; curte isso que eu reblogueio aquilo; retuita assim que eu hashtagueio assado: não se tratam de ferramentas que mediocrizam as relações, mas sim de ferramentas que instrumentalizam as relações medíocres que já existem em um cotidiano no qual não encontramos muito tempo para confraternizar com nossos grandes e verdadeiros amigos.

Em meio ao limite máximo de cinco mil amigos que podemos adicionar no Facebook, estamos ficando cada vez mais sozinhos mas, pelo menos, “curtimos” nosso isolamento em grupo.

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Como disse o bom e velho Zygmunt Bauman, o que torna as redes sociais atraentes não é a facilidade de nos conectarmos aos outros, mas sim a facilidade de nos desconectarmos de qualquer um com apenas um clique. Terminar de um laço afetivo é difícil no mundo real, mas acabar com uma “amizade” no Facebook é fácil demais, e isso mina os laços humanos, já que a perda de um amigo é contabilizada como pouca coisa – afinal, no dia seguinte, adicionamos outros cem no Facebook.

Nada contra as redes sociais em si mesmas. Eu próprio já construí amizades fortes e duradouras com pessoas que adicionei no Facebook sem sequer conhecer, apenas por termos algum interesse ou amigo em comum. Outras grandes amizades surgiram através de visitantes que comentavam em meu blog. A verdade é que nunca sabemos de onde pode surgir uma verdadeiro amigo.

O que não podemos fazer é permitir que as grandes amizades que surgem em nosso destino, mesmo que por meio do Facebook, acabem se perdendo na multidão de contatos que estabelecemos nas redes sociais. Essas amizades são nossa maior riqueza, ao lado de nossa mulher e de nossos familiares: são para essas pessoas que você devotará seus últimos pensamentos, isso eu garanto.

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É ao lado desses amigos que sempre nos sentimos, não importa a idade, moleques junto a outros moleques, como se fôssemos um grupo de eternos meninos, cheios de entusiasmo perante a vida, explorando o mundo com olhos admirados e compartilhando cada descoberta. São eles que seguram nossa barra quando caímos, que celebram nossas vitórias como se fossem suas, e que nos dão a real quando ninguém tem coragem de nos dizer a verdade.

E é por esses amigos que você sentirá arrependimento quando passar dessa para uma melhor, se não houver deixado claro para eles o quanto os ama. Asseguro você não se lembrará de seus bens materiais, tampouco de seus compromissos pessoais, e muito menos dos problemas que deixou pendentes. Você apenas pensará naqueles que ama, mesmo que não tenha coragem de dizer isso a eles.

Claro, talvez até nem precisemos dizer com palavras que amamos nossos amigos, até porque os homens tem um jeito próprio de demonstrar o que sentem, preferindo muito mais os gestos duradouros às frases prontas. O que é fundamental é expressarmos tal sentimento de um modo que esteja a altura de nossa amizade.

Há quanto tempo você não encontra seus amigos? Da últimas vez que os encontrou, você realmente ouviu o que eles tinham a dizer, as histórias que tinham para contar? Ouvi falarem de suas dúvidas, conquistas e problemas? Você realmente estava ali, presente, ao lado deles, ou estava pensando em futuros compromissos ou em preocupações cotidianas?

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Quem escreve este texto é alguém que já passou pela situação e sabe: se você não for cuidadoso, poderá um dia lastimar não ter aproveitado o tempo em que esteve ao lado de seus amigos para, com um aperto de mão, um abraço, uma gargalhada em comum ou mesmo um brinde, comemorar a grande amizade que os une feito irmãos.

Por isso, sugiro que você seja esperto e, ao invés de ver deixar que suas grandes amizades se diluam nas redes sociais, utilize as redes sociais para potencializar suas grandes amizades.

Então não perca mais tempo lendo esse texto, e vá ao Facebook ou ao Twitter convidar seus amigos para uma confraternização na vida real, em um bar, em um parque, enfim em qualquer lugar no qual vocês possam, do seu jeito, celebrar essa fortuna que é ter caras fantásticos ao seu lado durante a jornada de contínuas descobertas que é a vida.

E faça isso como um homem deve fazer: faça agora, sem desculpas. Porque você não é eterno.

 

Aos 30 e tantos ou aos 40 e tantos, vida de solteiro. Inspirado por uma matéria do Globo do dia 23.12.2013

O Jornal o Globo de hoje traz matéria da jornalista Janaína Figueiredo que leva a reflexão. Trata da cineasta argentina Paula Schargorodsky, que documentou por mais de 10 anos sua vida e a opção pela vida “solo”, à margem das convenções sociais. Seu curta-metragem, 35 and Single, fui publicado com láureas pela seleção de vídeos de opinião do New York Times.

Aos 35 Anos

Vida de Solteira

Por Janaína Figueiredo para o Jornal O Globo de 23.12.2013

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BUENOS AIRES – Ser solteira, ter 35 anos, e estar rodeada de amigos casados e com filhos não é, necessariamente, uma má condição, apesar dos mandatos sociais que, muitas vezes, fazem com que homens e mulheres sofram por não cumpri-los à risca. Essa é a mensagem que a cineasta argentina Paula Schargorodsky tentou transmitir com o curta “35 and single”, publicado pela seleção de vídeos de opinião do “New York Times”, este mês. Paula, que está produzindo um filme com a mesma temática, jamais imaginou a repercussão que o vídeo teria em tão pouco tempo. Mais de um milhão de visitas no YouTube e reportagens em jornais do mundo inteiro. A história de sua vida e de seus relacionamentos, cativou pessoas até no Afeganistão, confirmando sua tese: há uma geração, global, que se sente pressionada por não se encaixar em modelos de família que nada têm a ver com sua essência.

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Paula começou a filmar sua vida e as pessoas que fizeram e fazem parte dela há mais de dez anos. Para o curta e para o futuro filme, que espera estrear em 2014, foram selecionados cinco homens que passaram por sua vida, “os mais próximos e também divertidos”.

— Queria dar visibilidade às mulheres. Muitas vezes somos consideradas as ovelhas negras da família e dos nossos grupos de amigos — contou Paula, que trabalhou com uma equipe de vários colaboradores, entre eles a editora Rosário Suárez.

A mensagem final do curta, que multiplicou-se pelas redes sociais, é simples: “A felicidade, finalmente, é uma decisão… e o mais importante é buscar dentro de cada um e não tanto fora”.

— As coisas chegam quando chegam, mas, primeiro, temos de estar bem com nós mesmos — disse a cineasta, que também é instrutora da fundação A Arte de Viver, presente em mais de 150 países com cursos de meditação, para combater o estresse.

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Paula já foi premiada em festivais internacionais, como o de Tribeca, onde conheceu os editores do “New York Times” que se interessaram por sua teoria. No curta, ela conta que as amigas casaram, tiveram filhos e que, quando chegou sua hora, com o namorado supostamente “certo”, ela não soube ir pelo mesmo caminho. Depois de longa reflexão, veio a reposta: tudo o que queria “estava mais perto do que parecia… sozinha, ou com alguém, quando você se ama e se aceita totalmente, o mundo ao seu redor muda. Afinal, a felicidade é uma eleição”.

Neil Gaiman e a importância da leitura e de sonhar acordado. Por Luciano Ribeiro

Artigo de Luciano Ribeiro originalmente publicado no site Papo de Homem (http://papodehomem.com.br/neil-gaiman-e-o-poder-da-leitura/)

Reading Agency é uma instituição que busca trazer melhorias à vida de pessoas por meio da leitura.

Para seu evento de incentivo à leitura, convidaram Neil Gaiman para palestrar e falar um pouco dos benefícios da atividade em sua própria vida e o porque ele acha que é importante as pessoas continuarem lendo.

Mas quem é Neil Gaiman?

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordados. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Neil Gaiman não só foi um escritor, como foi alguém que transitou bastante pelo mundo dos sonhos, por meio de sua obra mais famosa: Sandman. Se você ainda não viu, vale cada página.

Além de seu trabalho mais célebre, também é autor de crônicas, novelas literárias, filmes e já levou prêmios como o HugoNebula e Bram Stoker.

Estudou bastante e já dissertou algumas vezes sobre a literatura e a arte de escrever, mas é a primeira vez que o vejo falar a respeito da importância da leitura como um transformador de vidas.

O vídeo e transcrição integral traduzida para o português

Abaixo a fala completa transcrita pelo site index-a-dora. É grande, mas se você tem algum apreço pela leitura, vale a pena.

Vi lá no Trabalho Sujo e trouxe pra cá.

* * *

É importante para as pessoas dizerem de que lado elas estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse dos membros. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: eu sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos eu tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E eu sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças de 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. As pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a ideia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar ideias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-los a ler, e mostrarmos a eles que a leitura é uma atividade prazerosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero, talvez, ou um autor e declará-los livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, RL Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

É tosco. É arrogante e é burro. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, por que cada criança é diferente. Eles podem encontrar as histórias que eles precisam, e eles levam a si mesmos nas histórias. Uma ideia banal e desgastada não é banal nem desgastada para eles. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que eles estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler RL Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos auto-obcecados.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google, e eles perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E eles descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu. Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente.E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos e pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal, e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades e conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

Como JRR Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou mágica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler, e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série, eles ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Ingaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócio-econômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordados. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.

O que eu amo quando digo “Eu te amo”? Por Gustavo Gitti

Artigo de Gustavo Gitti publicado originalmente no site O Lugar (http://olugar.org/o-que-eu-amo-quando-digo-eu-te-amo/)

O relacionamento com o outro é muito mais um relacionamento consigo próprio do que qualquer outra coisa

Não é bem com o outro que nos relacionamos. Explico em quatro cenas.

1. Depois do banho, me olho no espelho. Cabelo estranho, nariz torto, barba há tempos sem ver tesoura, barriga crescendo… e uma namorada a caminho, com saudade, louca para abraçar tudo isso. A equação não fecha.

2. Leio o email de uma garota que se apaixonou só de ver os perfis online de um amigo. Imaginou-se em cada foto, seduzida pelas possibilidades.

3. O ex-marido (e são inúmeros) me pede conselhos para resgatar a relação e confessa que não sabe como atualmente está sua ex-mulher. A quem ele se refere quando diz que perdeu a mulher de sua vida? Será que ele perdeu e está buscando não tanto a esposa, mas a si mesmo, o marido?

4. Em um dos episódios da série Seinfeld, George se apaixona por uma mulher em um presídio feminino. Relação perfeita: ele não tem competição, sabe onde ela está o tempo todo e pode ir sempre direto ao sexo. Quando ela sai da prisão, ele termina tudo. Seu envolvimento não era com a pessoa, mas com sua posição, seu ambiente.

amar

 

Nós amamos o mundo do outro. Mais ainda, amamos a experiência de ser alguém nesse mundo. O relacionamento com o outro é muito mais um relacionamento consigo próprio do que qualquer outra coisa — ainda que acreditemos no contrário. Assim como um homem adora aquela que o faz sentir mais homem, as mulheres se apaixonam pelo mundo do cara (afinal, o que tem de bonito em um homem?). Não importam tanto suas características pessoais, mas como eles dançam entre posições masculinas e femininas.

Em vez de nos preocupar com métodos de sedução ou terapias de autoestima, bastaria cultivar um mundo amplo, rico de possibilidades. Mesmo sozinhos podemos fazer isso. Sua presença ativa um ambiente de mistério, exploração lúdica, calma, espacialidade, frescor? Qual o seu mundo? Quais experiências oferece? Por onde você pode levá-la para passear?

Toda pessoa sabe que será tratada do mesmíssimo jeito que seu parceiro se relaciona com os fenômenos em geral. Ao ver um homem descrever sua paixão por vinhos, a mulher imagina o que essa paixão se tornará quando lhe for direcionada. É por isso que ela observa como ele chama o garçom, como resolve problemas, como brinca com uma criança…

O melhor jeito de conquistar uma pessoa é cultivar uma mente sem bagunça, pronta para recebê-la em casa. Um filme que dá gosto encenar. É já viver em um mundo no qual ela vai querer nascer. Fazer de sua vida inteira uma boa cama para ela se deitar. Porque não é exatamente você que ela vai amar.

Publicado originalmente na revista Vida Simples (agosto 2011).

Ressalva

Na época não coube em 2500 caracteres, agora considero importante adicionar: este texto fala sobre o amor condicionado, aquele está por trás da grande maioria dos “Eu te amo” por aí, e propõe um pequeno ajuste para ele funcionar melhor. E só.

Alguma clareza sobre essa dinâmica pode nos beneficiar em momentos que desejamos jogar melhor o jogo do amor condicionado. O limite disso é a incapacidade desse processo em realmente nos satisfazer. O que realmente interessa, para quando cansamos de ganhar e perder nesse jogo, é descobrir um outro tipo de relação, uma outra base, um jeito completamente diferente de agir, que curiosamente também é nomeado de “amor” pelas grandes tradições de sabedoria.

A segunda provocação de hoje: Make fatherhood a man’s choice. Artigo de Anna March

Artigo da jornalista Anna March, publicado originalmente no site Weeklings, reproduzido no site Salon (http://www.salon.com/2013/11/02/make_fatherhood_a_mans_choice_partner/)

The burden of pregnancy will never be fair. Child support can be — but men need to have a chance to opt out

father

 

MY MOTHER WAS unable to obtain an illegal abortion, though she tried, in 1967 when she learned she was pregnant with me.  Instead, she attempted paternity fraud—passing me off to her boyfriend as his child though I was actually fathered by another man.  Her boyfriend, who became my putative father, married her and then clued in when I was born, totally healthy, three months “prematurely.”  He went along with it, though. They divorced when I was six years old, but he paid child support until I was eighteen, $270 a month.  I’m a product of child support, and it was a necessary part of the financial picture for me and my Mom, who did not have a college education and often worked two jobs during my childhood.  My mother would race home from work, check the mail, and, when the check was there, we would go to the drive-in window, open until 7 pm, at the local branch of the Union Trust bank to deposit the check. Then she would get $20 cash back (this was the days before ATMs) and we would splurge on a pizza at the neighborhood Italian place next door.  On the way home we’d swing by the post office and she’d mail the envelopes with checks she’d been holding in her purse for days to C & P Telephone and to PEPCO for the electric and to Washington Gas. The next day came the grocery store. The connection was very clear: the bills didn’t get paid without the child support. The food didn’t get put on the table without the check from “dad.”

Despite all of this and in complete keeping with my deep-seated feminism, I believe that making fatherhood optional—as motherhood is—and revamping the child support system to stop requiring financial support from noncustodial parents (usually men) who want to opt out early is good for women, men, and the kids in question. In addition, we should further our support of women who choose to opt out of motherhood via abortion or adoption as well.  It’s time to make parenthood a true choice, on every level.

Over the past fifteen years, some feminists have argued that ending the current child support system is an important social issue. In the October 19, 2000 issue of Salon,Cathy Young argued that women’s freedom to choose parenthood is a reproductive right men do not have but should. Her article, “A Man’s Right to Choose,” identifies abortion rights and adoption as options that allow women greater sexual freedom than men when a sexual encounter results in conception.  While there are alternatives to parental responsibility for women, for men, “in the eyes of the law, it seems that virtually no circumstances, however bizarre or outrageous, can mitigate the biological father’s liability for child support.” Kerrie Thornhill’s article “A Feminist Argument Against Child Support” in the July 18, 2011 issue of Partisans picks up this point, arguing that where birth control and safe abortion are legally available, choosing a sexual encounter should be a different choice than choosing to be a parent. She offers a three-step replacement for the current child support system. First, Thornhill writes that “when informed of a partner’s pregnancy, a man should get a single, time-sensitive opportunity to choose fatherhood.” Second, by accepting, a man would assume all the responsibilities of fatherhood, but by declining he would legally be no different than a sperm donor. Finally, she suggests that for low-income families, state-funded child support should exist. In her article “Is Forced Fatherhood Fair?” for the June 12, 2013 edition of the New York Times, Laurie Shrage echoes Kerrie Thornhill’s sentiment when she opines, “In consenting to sex, neither a man nor a woman gives consent to become a parent.” She argues that if one believes that women shouldn’t be penalized for sexual activity by limiting options such as birth control, abortion, adoption, and safe haven laws (laws that provide a safe space for parents to give up babies), then men’s options shouldn’t be limited either. These writers all point out that motherhood should be a voluntary condition. Shrage and Thornhill agree that the construct that fatherhood after birth is mandatory needs to change.

Feminist response in opposition to the idea of giving men an opt-out of child support has been swift and passionate, including from many writers and publications I deeply respect. Pieces like Mary Elizabeth Williams’ “There Is No ‘Forced Fatherhood’ Crisis,” June 13, 2013, in Salon; Jill Filipovic’s June 17, 2013 blog post at Feministe titled “Is It Unfair to Force Men to Support Their Children?” ; and Meher Ahmad’s“’Forced Fatherhood’?  Yeah, Okay, Whatever” in Jezebel from June 13, 2013  all followed quickly on the heels of Laurie Shrage’s New York Times appearance. I have a deep admiration for all three of these writers and publications, yet take strong issues with each piece. Mary Elizabeth Williams tells a personal and compelling anecdote about how her father abandoned her family before she was born. She points out that this occurred before Roe v. Wade. Her story is a poignant example of why abortion and adoption need to be legal and available options, but it is a straw man as an argument against Laurie Shrage’s position. Shrage, along with Thornhill and Young, explicitly states that legal and available abortion is a necessary component of a woman’s reproductive autonomy and only suggests changing child support laws as a means to bring to men a similar reproductive autonomy to what women enjoy.  Filipovic wonders at what point a man should no longer be able to sever his parental rights. She doesn’t have to wonder, however, since Shrage both indicates that she is talking about obtaining informed consent at the time of assigning paternity but also states that child support makes sense in the case of divorce because a man already accepted the responsibility of fatherhood.  Ahmad goes so far as to acknowledge that the system is unfair to men, but argues that women face so much more unfairness that we shouldn’t care. Her claim that forced motherhood is more difficult than forced fatherhood is certainly true, given the burdens of pregnancy and childbirth. However, that inequity is not a reason to enact policy that forces fatherhood.

No one needs to make me understand how important child support is. I understand firsthand from my own childhood that child support is often a critical part of a child’s economic well-being or lack of same. The thing that keeps kids out of poverty keeps the food on the table. And beyond my own experience, the statistics on the importance of child support are unimpeachable—the money matters. However, I agree with the bulk of the points made in the pieces cited above that suggest we need to allow men an option out of fatherhood.  (To be clear, like these authors, I am not talking about cases in which people have decided to have a child together and then one person wants to opt out. I’m talking about a short window during pregnancy—so that women have enough time to make their own decision about which reproductive choice they are going to make in light of the man’s decision, in case that is a factor for them.) As Thornhill argues, men should have a window of time to decide whether or not they are going to sign up for fatherhood, and after that they will either be treated like a sperm donor or be held financially liable.  It’s close to parity with the choice women have—and fairness is a basic feminist value. Further, this system allows for women’s total reproductive autonomy and by doing so, we inherently advance women’s sexual and economic autonomy as well as strengthen feminism itself.   Finally, and perhaps most importantly, we improve the economic safety and well-being of any resultant children by ensuring adequate state support when necessary.

This system would forward the arguments for women’s reproductive autonomy by making women entirely responsible for the outcome of their choices. Of course, for this to work, we must encourage and enable women to make thoughtful choices about motherhood and reinforce abortion and adoption as available, valid choices. Currently, we tend to treat abortion with a literal whisper and adoption as an outlier. We shouldn’t automatically make the jump that a woman who is unable or unwilling to have an abortion for whatever reason will then have a baby who needs to be supported by her and a father—of course adoption remains a valid choice, even if we tend to dismiss it or ignore it in our rhetoric. We should reinforce our support for and demand for abortion rights—safe, affordable, accessible abortion on demand for all.

However, in the meantime, we should not use problems of access to and affordability of abortion as a reason that men must pay child support (i.e., that women can’t access abortion so they have to have and raise children and men therefore shouldn’t get off the “hook “either). Those women can utilize adoption.  It has always confused me that those who are in favor of holding men financially responsible for a child that results from a pregnancy do not attempt to hold men legally responsible for sharing the cost of abortion with a woman who decides to terminate her pregnancy.  I think men have a right to opt out of both, but if one argues that men are responsible for the outcome of a pregnancy they created, and abortion is the outcome, why don’t we pursue men for abortion costs?  Especially when, according to the National Network of Abortion Funds, more than 200,000 women a year in the U.S seek assistance with paying for their abortions.  The Network also points out that 4,000 women a year in the U.S. are denied abortions because they pass the legal gestational limit while trying to raise the funds. Why do we put men on the “hook” for children but not on the “hook” for abortions?

Additionally, lack of access to abortion doesn’t mean we should be unfair to men.  We need to stand by women’s reproductive freedom, no matter what choice a woman makes. And a woman who wants a child needs to be prepared to support that child even if the biological father is not willing.  I don’t believe that we will ever have true reproductive autonomy until men are offered the option, as women are, to opt out. We will never have full reproductive autonomy if we continue to put an asterisk next to “my body, my choice” and add the footnote “but if I decide to have a baby, pal, you have to pay.”

In the above mentioned Salon piece by Williams, she says, “I would love to live in a world in which no one is ever dragged kicking and screaming into parenthood. But that’s never going to happen.” Why not?  Women can opt out now—men should be able to as well.  Then we would live in a world where no one is dragged into parenthood.  Let us come to focus on that goal and not, as political philosopher Elizabeth Brake says on this issue, “fixate punitively” on getting men to pay.

And, as part of expanding our support of adoption as an option, we should expand our support of women utilizing safe haven laws.  Sometimes people say “outside of infant safe haven laws,” like Feministe did in the piece cited above, but let’s stop that. Let’s consider them a reasonable method of relinquishing parental rights, not merely a measure for the desperate.  As it stands, in most states, if a woman gives a child up for adoption via other methods, she and the father are still responsible for financial support until the child is adopted. (Safe haven laws vary state by state, but can typically be invoked for three to ninety days, with the average being about forty-five days. North Dakota allows up to one year.)

Perhaps consideration of the fact that it is a choice a woman makes to have a child rather than opting for abortion or adoption, not something beyond her control, will help us move our support of adoption past the wink-wink-nudge-nudge stage.  If a woman finds herself in need of economic assistance to raise her child, let us return that obligation fully to the state where it belongs, and was, until the conservative state decided to shift the burden to women’s sexual partners to reduce the welfare burden on government. Children’s economic welfare should not be tied to maternity or paternity.  The state needs to stop shirking its responsibility for its most vulnerable citizens—including kids.  Further, the one group of “fathers” the state is willing to exempt from child support are sperm donors, sending the message that it’s okay to have a kid and not support it if there was no sex, but if you get some pussy, you are going to pay. Let’s not support that model.

My point is not to wave the flag for “men’s rights.” Most of the agenda of the  “men’s rights” faction, which strikes me as largely a backlash against feminism, is intellectually weak and pains me.  Rather, my point is that from a feminist standpoint, revamping child support is good for all of us.  It removes social stigma from mothers who want to abandon their parental rights. We must be rational and fair and stop saying that differing biology means this can never be fair. It is better for children, it is better for women and men, and it is better for feminism. The burden of pregnancy will never be fair, no, as only women can get pregnant and they must solely face the physical burdens of pregnancy and abortion or birth.  But while pregnancy can never be a truly equitable burden, child support can—and should—be fair.

Sociedade dos Poetas Mortos. Poesia, filosofia e carpe diem

“We don’t read and write poetry because it’s cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. So medicine, law, business, engineering… these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love… these are what we stay alive for.”
― N.H. KleinbaumDead Poets Society

Sociedade dos Poetas Mortos é um daqueles filmes que não me canso de assistir. Lembro-me que fui vê-lo no cinema em 1990. Estava ainda no primeiro ano da faculdade e fui com colegas de turma, numa tarde chuvosa. A história de um grupo de estudantes que mudam sua visão sobre aprendizado e sobre a vida quando um novo professor (John Keating, em uma interpretação contida de Robin Williams) pouco convencional, chega à escola, rasgando capítulos de livros e encorajando seus alunos a subir em suas carteiras para ver o mundo de uma outra perspectiva ainda me emociona. Assim como os alunos de Keating, de certa forma o filme despertou meu interesse por poesia, filosofia e livre-pensar. Ainda hoje tento aproveitar meu dia e ter uma vida mais extraordinária.

Louis C.K. sobre celulares e nossa cultura da distração. Por Gustavo Gitti

Artigo originalmente publicado no site Papo de Homem (http://papodehomem.com.br/louis-ck-video-celular-smartphone-cultura-da-distracao-pare-tudo-7/)

Não é que você seja ansioso. Não é que seu amigo tenha dificuldades de se concentrar. Não é um problema de uma ou outra pessoa. Estamos todos vivendo em uma cultura da distração.

É uma epidemia, uma doença coletiva, social, essa nossa dispersão. Seres humanos considerados os mais saudáveis e normais ainda sofrem do que Alan Wallace chama de “distúrbio obsessivo-compulsivo-delusório”. Ora, se estamos em um ambiente que promove a pressa e a desatenção, qual é a melhor forma de se adaptar? Viver “na correria”, se distraindo sempre que dá.

Se nossa cultura fosse uma pessoa (impulsiva, desligada, entretida), ela não seria um adulto, ela seria um adolescente.

Sinais e sintomas estão por todo lado. Imaginem, por exemplo, um universo repleto de conglomerados de seres dedicados a produzir entretenimento — apenas entretenimento, sem arte, sem valores, sem sentido, sem nada por trás (pior, com visões e premissas que pioram nossa vida). Em qualquer universo imaginário minimamente digno, tais seres não conseguiriam dinheiro, teriam de arrumar outro trabalho. Mas em nosso mundo eles ganham dinheiro, obtém sucesso, magnetizam outros seres. Mais ainda: religião, arte, cultura, ciência, histórias incríveis e tragédias,tudo vira entretenimento e espetáculo aos olhos de quem está operando sob efeito do vírus da inquietude.

É como se estivéssemos permanentemente distraídos, como se vivêssemos qualquer experiência sempre com pelo menos 20% da atenção voltada a uma lista lateral de vídeos relacionados, pensamentos relacionados, insights incríveis, posts relacionados, músicas, livros, notificações, bips, mensagens, emails, comentários… Alguns não desligam o celular nem mesmo em retiros fechados de silêncio no meio do mato.

A fala perfeita de Louis C.K.

Se já viu, hora de rever. Se não viu, pare tudo e ouça com atenção a sabedoria do querido Louie (ative as legendas em português):

Transcrevo as três melhores porradas e deixo em inglês porque considero Louie um artista intraduzível:

“I think these things are toxic, especially for kids…they don’t look at people when they talk to them and they don’t build empathy. You know, kids are mean, and it’s ’cause they’re trying it out. They look at a kid and they go, ‘you’re fat,’ and then they see the kid’s face scrunch up and they go, ‘oh, that doesn’t feel good to make a person do that.’ But they got to start with doing the mean thing. But when they write ‘you’re fat,’ then they just go, ‘mmm, that was fun, I like that.’”

“You need to build an ability to just be yourself and not be doing something. That’s what the phones are taking away, is the ability to just sit there. That’s being a person. Because underneath everything in your life there is that thing, that empty—forever empty. That knowledge that it’s all for nothing and that you’re alone. It’s down there.”

“The thing is, because we don’t want that first bit of sad, we push it away with a little phone or a jack-off or the food. You never feel completely sad or completely happy, you just feel kinda satisfied with your product, and then you die.”

Variações sobre o tema

1. O vídeo do Louie rendeu um ótimo papo no podcast Atrás do front.

2. Vale parar por mais 17 minutos para assistar ao curta Noah (quem me recomendou foi a queridaAnna Haddad, do Cinese), que se passa na tela do computador de um adolescente. É genial.

http://www.fastcocreate.com/3017108/you-need-to-see-this-17-minute-film-set-entirely-on-a-teens-computer-screen

3. Sugiro também a leitura desse artigo no New York Times sobre o que podemos perder não apenas com o mal uso de um smarthphone, mas com o cultivo de uma mente desatenta em geral (mesmo quando não há nenhuma tecnologia por perto): “Your Phone vs. Your Heart” (http://www.nytimes.com/2013/03/24/opinion/sunday/your-phone-vs-your-heart.html?_r=2&)

4. Eduardo Pinheiro recomendou o filme Disconnect (http://www.imdb.com/title/tt1433811/) e vários amigos me recomendaram a série Black mirror (http://en.wikipedia.org/wiki/Black_Mirror_%28TV_series%29) sobre o efeito da tecnologia e das redes sociais em nossa experiência humana. Vi apenas o episódio “The entire history of you” e pirei.

5. Por fim, recomendo o texto do Eduardo Pinheiro sobre economia da atenção (http://www.portalhomem.com.br/especialistas/eduardo-pinheiro/artigos/economia-de-atencao).

Não é sobre celulares e redes sociais, é sobre nós

Calhou de ser essa tecnologia, mas qualquer coisa poderia evidenciar e potencializar nossa infinita capacidade de se perder, de se distrair, sofrer e fazer sofrer.

Fico sempre com a mesma pergunta: por que não paramos logo com tanta distração? Por que escolhemos, de novo e de novo, um dia cheio de entretenimentos? Por que é tão difícil encarar a tristeza, a solidão, a inadequação, o silêncio, o tédio, a morte, a realidade?

Uma pista surge de nossa relação com o ritmo: durante um intensivo de TaKeTiNa (http://drala.com.br/taketina-o-que-e/) muitas pessoas preferem passar horas, dias inteiros quase no ritmo, tentando acertar, sem alegria, por obrigação, sofrendo pra valer, tudo porque não suportam nem por alguns segundos a sensação de estar fora do ritmo, de não pertencer, de errar, de se frustrar.

E não suportam, como sacou Louie, porque não conseguem imaginar (e quase nunca pagaram para ver, investigaram com genuína curiosidade) o que aconteceria se saíssem do ritmo e ficassem um pouco mais, só um pouquinho mais sem tentar voltar, se apelar para hábitos manjados, sem tentar se dar bem, apenas se relacionando com a realidade que se apresenta, momento a momento, sem tantas preferências e comentários e ajustes e tentativas. A partir desse estado mais relaxado e atento, podemos nos relacionar diretamente com a realidade (com a vida, com o ritmo, com os outros…), realmente se comunicar.

A alegria de não precisar de entretenimento talvez seja muito maior do que as mil alegrias que os entretenimentos prometem e tentam causar. E talvez essa seja a cura para a nossa cultura da distração.

Este post pode virar distração…

Podemos converter o vídeo do Louis C.K. em mais entretenimento — achar genial, levantar o tema no bar e seguir a vida igualzinho — ou podemos levar isso a sério, olhar com mais cuidado o tamanho do buraco e começar a estimular outra cultura.

Será que dá desenvolver a atenção e aplicar antídotos à dispersão mental? É possível aumentar nossa capacidade empática e compassiva? Como oferecer nossa presença e criar espaços nos quais as pessoas naturalmente sejam menos ansiosas? Como se aproximar da solidão e da tristeza? Como sair da eterna adolescência?

Criamos um laboratório coletivo de transformação (http://olugar.org/aberto/) para compartilharmos e aprofundarmos essas descobertas. Você está convidado.