Os amores do marujo. De Jader Pires

Conto de Jader Pires publicado originalmente no site Papo de Homem (http://papodehomem.com.br/os-amores-do-marujo/)

Era um vilarejo pequeno, com não mais que quarenta famílias. Mariana era apaixonada pelo Marujo, um homem já vivido que não saía mais com seu barco. Passava os dias sentado na beira da praia, olhando a linha distante que fazia confundir água e ar, onda e nuvem.

Tinha no rosto as marcas da vida que lhe arranhavam logo ao lado dos olhos pequeninos e atentos. Já foi um grande pescador, marinheiro de primeira, mas, como todo homem do mar, nutria o comportamento náutico de dividir seu amor e deixá-lo — pedacinho por pedacinho — nos mais diversos pontos do mapa. Agora, esgotado de afeto, em vez de labutar com as confidências dos sete mares, ficava em terra firme costurando seus desgostos. Nada havia restado.

Mariana adorava se sentar ao lado dele e perguntar sobre suas aventuras na água, atiçava a nostalgia do pobre homem que, tomado de uma inocência dos mais tolos, relatava para a menina curiosa trechos de sua peregrinação carinhosa:

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“Putaqueopariu, que negra gostosa! Era sempre isso que eu pensava enquanto estava comendo a Mirian. Ela era das fortes, geneticamente dominante. Gostava mesmo era de dar a bunda, aquela mulher. Tinha a entradinha tesa, dura de turrona mesmo. Não era eu quem fodia ela. Ela que me mastigava por trás.

Conheci a Mirian em um ponto de ônibus em frente à hospedaria onde eu ficava na capital. Toda cafona a menina, sentada esperando o coletivo com as meias até a canela, uma maquiagem feia e pesada na cara, fazendo olhos chineses naquela cara africana herdada. Passei-lhe um gracejo lambão, ainda do outro lado da rua, e ela me mandou às favas (claro que não com essa elegância, mas me vejo numa situação desnecessária de reavivar a ignorância dela que potencializa a minha). Bem, alguns dias de equilíbrio na linha fina entre meus flertes e a agressão verbal dela, uma chuva de verão fez com que a desbocada fosse parar no meu banheiro pra se enxugar e foi a primeira vez que eu botei na bundinha dela. Foi a primeira vez que ela mandou em mim — do começo ao fim.

Nesses dias, a Mirian passava lá no meu quarto todos os dias. Era uma violência desmedida. Chegava durona, me mandava comprar algo pra comer, mexia na minha cachaça. Me cutucava até eu perder as estribeiras e apertá-la contra a parede. Pensando bem, agora, acho que nunca trepei com ela na cama. Era sempre algo grosseiro, mão na parede, calcinha nos joelhos. Todo final acabava em briga e eu a expulsava do quarto. No outro dia, lá estava a safada querendo mais. Até que o irmão dela morreu em uma briga de bar. Ela me contou uma vez das iras do garoto, de uma vez que ele desmaiou outro homem, bem maior, dando com o ventilador na cara do puto. Um dia esse cara veio dar o troco e, na ignorância, descarregou a arma toda no peito do moleque. Ela ficou com medo e se mudou. Nunca mais eu vi a Mirian”.

A Mariana foi entendendo que, naquele tempo, o velho lobo do mar utilizava esse leva-e-trás de si mesmo em diversas cidades para conhecer as meninas da região e consumia sentimentalidades até confiar à garota certa parte do que ele era. Após anos de um árduo trabalho artesanal, conseguiu experimentar as mais diversas facetas de mulher. Foi deixando pedaços de apreço para cada uma delas.

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“Teve uma vez que eu fui chamado, lá na capital, para um trabalho que pagava muito bem, mas era pra passar meses fora, lá em cima nos países gelados. Era uma loucura da parte deles chamar a gente, daqui debaixo desse sol, para pegar peixes no meio do gelo. A gente penou, mas trouxemos o pedido em dia, do jeitinho que eles pediram. Lá, no meio daquela invernia toda, foi a Nina quem esquentou esse velho aqui. Eu não sabia trocar uma palavra com aquela doida de olhos pretos e cabelo mais pretos ainda. Parecia que ela tinha atirado os cabelos e as bolinhas dos olhos no piche, o que se fazia ressaltar mais ainda diante de uma imensidão branca e gelada. Quando eu estava com ela, era noite o tempo todo. Ela me dava algo quente para beber, ficava me olhando por horas. Eu contava as pintas que ela tinha na cara, era cheia de sardinhas, ela. Uma boneca de pele rosada.

Não tinha conversa, eu não conseguia simplesmente foder com ela. A Nina botava dentro de mim uma serenidade tão grande que eu só fazia contemplar aquela menina, só me restava botar a pequena em um altar de gelo. Ah, Nina…

Certo dia, um dos supervisores do barco que sabia falar a língua lá daquele povo me contou que ela confidenciara à ele que tinha sonhado comigo uma noite antes e que tinha batido uma pensando em mim. Estava bêbada a coitadinha. Eu não sabia bem o que dizer e nada fiz. Fiquei apenas — mais uma vez — deixando que ela me olhasse e cuidando para guardar com as vistas cada pedacinho dela. Acabou que a Nina se cansou de mim e nunca mais apareceu no bar. Fiquei sabendo que ela foi para terras ainda mais geladas, mas não sei se é verdade. Maldito altar que me deixava tão distante dela.”

Todos os dias Mariana dava um jeito de terminar mais rápido todas as suas tarefas para ir se sentar com o Marujo nas pedras. Ele nunca olhava pra ela, só para as águas que se debatiam, chegavam perto mas, assim como as mulheres de sua vida, iam embora logo depois. Ela se sentava, perguntava como ele estava, cutucava questionava até coloca-lo de frente com outra lembrança.

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“Na época da guerra a gente foi parar em Nova Iorque pra vender coisas para os americanos. Eles estavam em uma farra imensa enquanto o a briga toda se desenrolava do outro lado do oceano. A Jennifer nasceu e foi criada por lá, mas sabia falar o nosso idioma. O pai dela trabalhou por aqui uns tempos e ela aprendeu o português direitinho. Era uma fofa de menina, toda à frente do tempo dela. Tinha dinheiro, cultura, mas gostava mesmo era de conversar com os marinheiros. Me levou para conhecer os prédios imensos de lá, queria me mostrar os museus, me levou para conhecer o jazz, deu de presente para mim um terno caro, todo cortado na hora por um alfaiate que só fazia vestuário social masculino. Eu insisti que nunca iria usar, mas ela queria me ver de paletó e sapatos bicolores.

Foi bem intenso e interessante, mas eu não me sentia bem com aquilo tudo. Fui um tremendo de um otário, poderia ter aprendido tanta coisa, absorvido tanta coisa. A Jennifer estava lá para me dar toda a abundância de conhecimento e eu, no auge da minha teimosia juvenil, não fiquei para ver. Embarquei no primeiro navio de volta e deixei o terno na entrada do prédio onde ela morava.”

Ele já sabia, a essa altura, da paixão da menina por ele e queria mostrar que nunca foi flor que se pudesse cheirar:

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“Pobrezinha da Natália, era uma menina tão doce que chegava a amarrar na boca. Tinha sido largada na igreja enquanto o namoradinho fugiu com outra. Lá no sul, isso é bem pesado. Chorava dia e noite, não havia consolo para ela. Eu a conheci em um bar perto da rodoviária. Ela tinha comprado um bilhete para ir atrás do namoradinho. Queria tentar trazer ele de volta, dizia que tinha perdoado. Eu estava em uma seca bem brava naqueles tempos e resolvi fazer a cabeça da menina. A convenci que namoros e relacionamentos sempre dão em nada, que a vida nada mais era do que pontuações de momentos carnais e o resto era apenas linhas que ligavam uma excitação a outra. Perguntei se ela se tocava pensando nele, se ela sentia falta do pau dele. Ela confessou ainda ser virgem.

Cacete, que pancada que eu levei. Uma pequena deliciosa daquelas e nunca tinha se liberado na cama com o fedelho. Vai ver foi por isso que ele correu. Onde ele falhara, eu não cometeria o mesmo erro.

Deixei a Natália doidinha com juras quentes ia descrevendo o que eu faria com ela com todas as minúcias safadas até deixar a menina doidinha. Já que estava tudo desabando mesmo, ela resolveu descontar tudo com o marinheiro nojento que ela mal conhecia. Tirei a castidade da moça no beco atrás do bar, do lado dos latões de lixo. Levantei a saia dela e me lambuzei com menos de dez minutos. Ela nada falou, só ficou lá esperando sua dignidade ser tomada por mim. Acabada a putaria, limpei minhas partes na barra do vestido dela e a mandei para casa. Deu para ouvir o choro dela antes que virasse a esquina do beco”.

Mariana percebera o ódio que ele sentia daquele que ele foi um dia. Ele já não botava mais os pés em um barco com medo de encontrar esses daí que ele tanto desprezava.

No outro dia, ela foi logo cedo bater na porta do casebre dele. Ainda de cuecas, abriu a porta e encontrou uma menina com uma mochila empacotada nas costas. Não queria deixar ela entrar, pensou que, se alguém visse, seria um problema dos bem grandes. Não adiantou. Ela escapuliu pelo canto e entrou dentro de casa. Ele começou a se vestir enquanto ela foi em seu quarto e começou a fuçar em suas coisas. Espantado, questionou qual era a razão da sandice e ela, obstinada, mandou que ele preparasse um café bem preto e bem forte.

Terminada a mala do Marujo, Mariana pôs-se a preparar os mantimentos que levaria com eles. Enquanto ambos trabalhavam na cozinha, ela resolveu falar:

“Ouvi tudo o quase tudo de ti. Conheci quase o mundo todo só escutando o que você tinha pra falar. Isso me fascina demais. Mas, mais ainda, me intriga o fato de você achar que não pode mais ser o homem que já foi, que não pode se entregar e nem cuidar daquele que se entrega pra você. De fragmento em fragmento, você acha que foi se deixando por aí, até restar mais nada ou isso aí que você chama de você. Se estás, então, repartido e distribuído mundo afora, eu vou te buscar pra mim. Eu vou te buscar pra você mesmo, Marujo.

Agora larga de ser teimoso e medroso e me leva pro mar”.

E foi só depois de tempos que, no meio do oceano, ele conheceu o amor da vida dele.

“O tempo” de Mário Quintana, por Antonio Abujamra.

O tempo
O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê, já não sabemos mais por onde andam nossos amigos
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casaca dourada e inútil das horas…

Eu seguraria, todos os meus amigos, que já não sei onde e como estão e diria: vocês são extremamente importantes para mim
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.