A Favor do Tedio. Contardo Calligaris, no Jornal Folha de Sao Paulo

Artigo de Contardo Calligaris publicado originalmente no Jornal Folha de Sao Paulo de 21/11/2013

Alguns livros recentes tratam dos malefícios de nossa constante vontade de encontrar diversões. Como sugere o título de um deles, “The Distraction Addiction”, de Alex Pang (Little, Brown and Company), a vontade de se distrair seria um vício, uma forma de dependência.

Também, desde o começo do ano, leio artigos de revista sobre “os surpreendentes benefícios do fato de sentir tédio”.

Os livros não me pareceram imperdíveis. E os artigos nas revistas de grande circulação citam “pesquisas” por ouvir dizer. Mas tanto faz. O conjunto manifesta um novo clima, segundo o qual a necessidade de sermos entretidos e estimulados continuamente não tornaria nossa vida mais rica e variada –ao contrário, é possível que essa dispersão empobreça nossa experiência.

Já foi dito por evolucionistas que a sorte de nossa espécie foi sua fraqueza: enquanto passávamos horas a fio escondidos e calados nos arbustos, esperando as feras passarem, a imobilidade e o tédio forçados produziram o surgimento da consciência, do pensamento e da fantasia. Que tal aplicar essa hipótese no campo da educação?

O que é mais “educativo” para as crianças? A diversão? Ou a chance de se entediar?

Umberto Eco atribui ao filósofo Benedetto Croce uma frase que ele cita com frequência: “O primeiro dever dos jovens é o de se tornar velhos”. Esse slogan não tem como ser muito popular numa época em que o primeiro dever dos velhos é o de eles parecerem jovens. De fato, nesta nossa época, os adultos não ajudam os jovens a envelhecer; eles preferem mantê-los na mesma criancice que eles desejam para si.

Há pais agentes de viagem e relações-públicas, que, a cada dia, organizam programas “divertidíssimos” para seus rebentos. Esses pais procuram amigos para brincadeiras coletivas e oferecem, a jato contínuo, coquetéis de televisão, cinema, compras, videogames e até livros: qualquer coisa para evitar que a criança conheça a solidão e o enfado. Sabe-se lá quais pensamentos surgiriam numa mente entediada, não é?

Certo, é preciso estimular as crianças para que elas se desenvolvam na interação com o mundo. Mas o problema é que, sem tédio maçante, ninguém, criança ou adulto, consegue inventar para si uma vida interior. E para que serve uma vida interior? Se forem pensamentos aos quais recorremos quando não temos nada para fazer, não é mais simples a gente se manter ocupado e não precisar da tal vida interior?

O problema é que há uma boa parte da vida exterior que, sem vida interior, é totalmente insossa. Tomemos o exemplo do erotismo.

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Está aberta até dia 12 de janeiro, no Metropolitan de Nova York, a exposição “Balthus: Cats and Girls” (Balthus: gatos e meninas). O catálogo, com o mesmo título, contém uma excelente introdução da curadora, Sabine Rewald.

Balthus (1908-2001) pintava com frequência gatos e meninas, juntos ou separados. Os gatos são ótimos administradores de seu tédio. Eles sabem se divertir quando a ocasião se apresenta, mas também sabem não fazer nada. Nisso, eles batem os cachorros, que sempre parecem aliviados quando finalmente têm algo para fazer.

Agora, esse dom da gestão do tédio, os gatos têm em comum com as meninas que Balthus pinta, que são todas, antes de mais nada,
entediadas.

As longas sessões nas quais posavam para o pintor talvez servissem deliberadamente para produzir o tédio que Balthus queria pintar. Há as meninas quase vencidas pelo sono no meio da leitura, há as que jogam paciência no silêncio palpável da tarde numa casa de província francesa –todas parecem entregues a devaneios inquietantes.

A gente pode se indignar com a diferença de idade entre Balthus e suas modelos adolescentes, mas o fato é que os retratos das meninas são uma extraordinária ilustração de que o tédio e a indolência são as portas que levam aos pensamentos impuros.

Ou seja, é bem provável que a criança entediada tenha uma vida erótica adulta mais interessante do que a criança que cresceu de joguinho em joguinho, de amiguinho em amiguinho, de diversão em diversão.

O que me leva, aliás, a uma suspeita. Os pais que combatem o tédio dos filhos talvez estejam combatendo possíveis “pensamentos impuros” –videogames, filmes, amigos, tablets e futebol, tudo contra o espantalho da masturbação, que espreita a criança entediada e solitária.

Agora, sem pensamentos impuros na criança, o que será o erotismo do adulto no qual essa criança se tornará? Um erotismo sem vida interior, talvez.

Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas na versão impressa de “Ilustrada” da Folha de Sao Paulo

Emma, a mulher [e o homem] atual eternizada por Fleubert. Por Roberto Amado

Artigo de Roberto Amado publicado originalmente no site Poucas Palavras (http://robertoamado.com.br/emma-a-mulher-atual-eternizada-por-fleubert/)

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Emma era uma jovem e bela senhorita de uma remota vila francesa no século XIX. Entediada com a vida, mas ambiciosa socialmente e desejosa de manter seu padrão de vida pequeno-burguesa, Emma casa-se com um modesto médico da região, apaixonado por ela, mas sem a menor graça ou encanto. Para resolver suas angústias, Emma descobre o adultério e, sem menor dor na consciência, alivia um pouco seu tédio provinciano.

Esse é, em resumo, a história perpetuada pelo francês Gustave Fleubert, na obra “Madame Bovary” — um clássico da literatura mundial e que, em essência, parece não perder a atualidade. Na época em que foi escrito e publicado, em 1856, “Madame Bovary” rendeu muita dor de cabeça ao seu autor. Algumas cenas protagonizadas por Emma não escondem detalhes que, na época, eram considerados pura pornografia. O livro foi censurado e Fleubert processado e acusado de “imoralidade”, chegando ao cúmulo de sentar-se no banco de réus — de onde acabou saindo, inocentado pelo Tribunal de Paris.

Emma é a mulher  de antigamente e também a de hoje [e aqui digo eu, Gustavo, e não o autor: também o homem de hoje]. Por isso, Madame Bovary permanece: trata-se de um personagem universal [e digo eu, Gustavo, de novo… justamente por ser universal, personagem sem gênero]. Vivendo angústias de um relacionamento arranjado, lidando com a ansiedade e com o desejo, vivendo o sexo como uma válvula de escape para suas frustrações e sua vida limitada e aborrecida. Quando, no tribunal, quiseram extrair de Fleubert a informação de quem era, afinal, Emma, o autor proferiu uma frase que o eternizou: “Emma sou eu”.

Fleubert não foi apenas um autor polêmico. Representante de um novo realismo, era, antes de mais nada, um exímio escritor, capaz de passar dias seguidos trabalhando em um parágrafo, à procura da “mot juste” — a palavra certa em francês — expressão que ele mesmo cunhou e eternizou. Seus livros, hoje clássicos, expressam um dos melhores momentos da literatura francesa. Com o adicional de ousar e desafiar os costumes  da época na busca por retratar o comportamento de uma mulher universal.